4,5 mil falsos profissionais são flagrados

Número leva em conta só golpistas paulistas detidos nos últimos 18 meses; saúde e finanças de vítimas viram alvo

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

08 Agosto 2009 | 00h00

Pelo menos 4,5 mil pessoas se passaram por falsos profissionais no Estado de São Paulo nos últimos 18 meses, e foram denunciadas pelos conselhos de classe. Os falsários aplicaram golpes no papel de farmacêuticos, dentistas, fisioterapeutas, corretores de imóveis e advogados, causando danos à saúde e às finanças das vítimas. Só na semana passada foram duas ocorrências registradas pelo Conselho Regional de Odontologia (Crosp). No Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito), houve 200 casos neste ano. Já o Conselho Regional de Farmácia (CRF-SP) está com 170 denúncias de falsos profissionais. O Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) identificou até junho 898 pseudocorretores - no ano passado, foram 2.156 golpistas. E a OAB-SP investiga mais de mil processos com leigos se passando por advogados. De acordo com o presidente do Creci, José Augusto Viana Neto, zeladores, síndicos e gerentes de banco com bom relacionamento são os que mais costumam exercer ilegalmente a corretagem de imóveis. "Isso é muito sério porque essas pessoas estão lidando com o bem maior das outras, que é o imóvel", explicou. Falsos corretores também costumam, segundo ele, atuar no mercado de locação, recebendo dinheiro adiantado e sumindo na sequência. "É muito triste porque podem levar anos e anos de economia das vítimas." A entidade ainda observa aumento nesse tipo de ocorrência quando o mercado de trabalho passa por recessão econômica, como agora. MEDICINA Em todos os cantos da capital paulista, é fácil se ver placas de drenagem linfática. Mas só os fisioterapeutas podem realizar esse tipo de procedimento. "Se não for bem feita, pode causar danos ou até levar à morte, dependendo do problema de saúde que o paciente tenha", garante Gil Lúcio Almeida, presidente do Crefito. Ele acrescentou que já ocorreram duas mortes na cidade em decorrência dessa massagem feita de maneira errada. Em 2007, o órgão constatou que 2.100 salões de beleza do Estado ofereciam drenagem linfática. Os casos foram denunciados ao Ministério Público e cerca de 30% dos estabelecimentos tiveram de fechar as portas. Enquanto isso, a Comissão de Fiscalização e Defesa da Advocacia da OAB-SP não dá conta do grande número de processos envolvendo falsos advogados. "Ao contrário de outras profissões que precisam de equipamentos, o falso advogado só precisa estar bem vestido e ter boa lábia", diz o presidente da comissão, Maurício Scheinman. Já os balconistas de farmácia se passando por farmacêuticos viraram alvos do CRF. "Essas pessoas atuam como profissionais, mas não têm o conhecimento técnico para exercer a profissão", avaliou Raquel Rizz, presidente do órgão. Ela observa, por exemplo, que, quando o farmacêutico tem dificuldade com a letra do médico ou dúvidas na quantidade prescrita, entra em contato com o profissional para tirar as dúvidas. "Já o balconista não faz isso. E o que é pior é que muitos ainda prescrevem remédios." Caso semelhante ocorre com os protéticos, que se dizem dentistas. "O sujeito acha que tem conhecimento, mas, no fundo, não sabe o que está fazendo", diz o presidente do Crosp, Emil Adib Razuk. Ele explica que uma prótese mal ajustada pode até levar ao câncer de boca e uma extração sem a higiene necessária pode provocar, em casos extremos, a morte do paciente por septicemia. "É por isso que preocupa." PENA IRRISÓRIA A pena para o exercício irregular da profissão é irrisória, na avaliação do delegado José Roberto Arruda, da 2ª Delegacia de Repressão a Crimes contra a Fé Pública. A pena vai de 15 dias a 3 meses de detenção ou multa. No caso de exercício ilegal para médicos, farmacêuticos e dentistas, a pena é de 6 meses a 2 anos detenção. Na Câmara dos Deputados está tramitando um projeto de lei para tornar a punição mais dura para essas três categorias - de 2 anos a 6 anos de reclusão e multa. "E isso também vale para o dono de estabelecimento que contratar essas pessoas", adianta o autor do projeto, deputado Édio Lopes (PMDB-RR).

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