40 pessoas morrem todos os dias nas estradas do País

Estimativa é do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) com base em dados do Denatran e das Polícias Rodoviárias; Santa Catarina é o segundo no ranking de mortes

Bruno Tavares, Rodrigo Brancatelli e Eduardo Reina, O Estadao de S.Paulo

11 Outubro 2007 | 00h00

As 27 pessoas que morreram anteontem à noite na BR-282 engrossam uma triste estatística, que teima em não cair mesmo após dez anos da implantação do Código de Trânsito Brasileiro. Santa Catarina é o segundo Estado que mais mata pessoas em estradas federais e estaduais no País - ano passado, 1.183 perderam a vida, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base nos dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e das Polícias Rodoviárias. Número apenas menor do que Minas Gerais, o campeão em tragédias nas estradas, com 2.335. Se for levado em conta os 1,3 milhão de quilômetros de rodovias, o Brasil mata em média 40 pessoas por dia em acidentes. O cálculo do Ipea une o total de mortes em rodovias federais e a estimativa de mortes nas estaduais no ano passado. A cada 1.000 acidentes nas estradas federais, 772 pessoas ficam feridas, 58 morrem na hora e 37 morrem no hospital. O prejuízo causado aos cofres públicos é de R$ 22 bilhões ao ano - estão incluídos gastos com saúde e resgate, a reabilitação, os danos aos veículos, a perda da carga do caminhão, a remoção do veículo e o translado da carga e até a perda de produção da pessoa que fica sem trabalhar. Uma vítima fatal chega a custar R$ 281.216 para o governo. "Não entendo como a nossa sociedade aceita matar até 100 pessoas no trânsito todos os dias em acidentes que poderiam ser evitados", diz Ailton Brasiliense, ex-diretor do Denatran. "Formamos mal nossos motoristas, não oferecemos educação e mantemos nossas estradas em situação precária. Daí para frente, as mortes são apenas uma questão quantitativa." Brasiliense vê ainda mais um agravante: o descaso das autoridades. "Os órgãos de trânsito são considerados geradores de receita. Para a maioria dos governantes, acidente de trânsito é como terremoto. Eles não se sentem responsáveis." O advogado Luiz Flávio Borges D?Urso, estudioso dos crimes de trânsito, diz que a impunidade em casos de acidentes fatais causados pela imperícia de motoristas é mais do que comum. "O Código de Trânsito Brasileiro é severo, com a imputação de 11 tipos diferentes de crimes de trânsito, mas a aplicação é esquecida." Nos últimos dias, houve pelo menos três acidentes de repercussão nacional. Um dos mais graves ocorreu na noite de domingo. Um promotor de Justiça atropelou e matou três pessoas da mesma família em Araçatuba, interior paulista. A polícia afirma que ele dirigia embriagado. No dia seguinte, o professor de Educação Física Paulo César Timponi, genro do ex-deputado baiano Prisco Vianna, foi preso acusado de provocar o acidente que matou três pessoas na ponte JK, em Brasília. O ex-jogador de futebol e comentarista de TV Walter Casagrande chegou a ficar em coma, no mês passado, após capotar seu jipe. "Em vez de ir para a cadeia ou prestar serviços comunitários, faz-se sempre um acordo", diz D?Urso. "A punição não é eficiente. Há uma complacência da sociedade nisso, as pessoas ficam com receio que um dia aconteça com elas." Relatório divulgado em 2004 pela Organização Mundial de Saúde alertava para o aumento de acidentes em rodovias. A projeção é de que, se nada for feito, as mortes e seqüelas causadas por acidentes de trânsito ocuparão a terceira posição no ranking mundial - hoje é a nona. O índice de mortes por 1 mil quilômetros em rodovias é de 10 na Itália, 6,56 nos Estados Unidos e de até 3,3 no Canadá. No Brasil é de 106,79.

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