52 PMs são presos por corrupção e Rio pode recorrer à Força Nacional

Justiça decretou ao todo 59 mandados, o que representa quase 10% do efetivo do 15º Batalhão de Duque de Caxias

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2018 | 00h00

As Polícias Civil e Militar prenderam ontem 52 sargentos, cabos e soldados do 15º Batalhão da PM, de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, por associação para o tráfico, corrupção ativa e passiva e concussão (extorsão praticada por servidor). O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, disse que poderá chamar agentes da Força Nacional de Segurança para cobrir as áreas patrulhadas pelos detidos. A Justiça expediu ao todo 57 mandados de prisão de PMs da ativa e 2 de reformados - quase 10% do efetivo de 617 homens do batalhão. Segundo o Ministério Público do Rio, os PMs cobravam propina para soltar traficantes presos, alertavam esses bandidos sobre operações policiais e recebiam propina semanal. Tentaram ainda convencer os criminosos a mobilizarem a população contra o comando do batalhão, que, segundo eles, estava sufocando o tráfico na região. O esquema ligava os policiais a bandidos das Favelas de Parada Angélica e Santa Lúcia, distrito de Imbariê - cinco desses traficantes foram presos na blitz e dois continuam foragidos. ''''Os policiais prestavam assessoria para o tráfico. Uma parceria intolerável. A resposta penal deve ser severa'''', disse o procurador-geral de Justiça do Rio, Mafran Vieira. ''''Se quisermos oferecer segurança para a sociedade, é imprescindível esse trabalho'''', disse Beltrame, referindo-se à operação de ontem, batizada de Duas Caras pela Polícia Civil. Apesar do alto número de policiais envolvidos, ele disse que não estranhou a ausência de oficiais da PM entre os acusados. ''''Não apareceu nenhum oficial porque as investigações não comprovaram. Não adianta forçar a barra. Se tiver envolvimento de oficial, será investigado da mesma forma.'''' Vieira disse que as investigações ''''não apontaram provas do envolvimento de oficiais, mas o trabalho ainda não terminou''''. Vieira revelou que a máfia do 15º BPM começou a ser investigada no início do ano, com base na apreensão de um caderno de anotações do traficante Juliano Gonçalves de Oliveira, o Juca Bala, detido no presídio de Bangu 3. ''''Entre as anotações da contabilidade do tráfico havia o telefone de uma senhora identificada como Tia, cujo sigilo foi quebrado. Ela era o elo entre os maus policiais e traficantes'''', disse o chefe do MP do Rio. De acordo com Vieira, em uma das escutas de telefonemas trocados entre policiais e traficantes, a equipe do 15º BPM se queixou com os bandidos do comandante do batalhão, tenente-coronel José da Silva Macedo Júnior. Os policiais orientaram os criminosos a procurarem um pastor evangélico para organizar um abaixo-assinado pedindo a transferência de Macedo Júnior. Beltrame ressaltou o fato de o tenente ter colaborado com as investigações. Mas a troca do comando do batalhão não está descartada pela cúpula da PM. Essa não é a primeira vez que soldados do 15º BPM se rebelam contra tentativas de moralização da unidade. Eles já tinham sido acusados de matar duas pessoas em 30 de março de 2005, em retaliação contra o antigo comando do batalhão. A ofensiva para combater a corrupção na PM da Baixada Fluminense culminou, no dia seguinte, na maior chacina da história do Rio, com 29 mortos (Veja texto abaixo). Na operação de ontem, alguns dos policiais começaram a ser presos de madrugada, quando largavam o turno, e outros quando chegavam para trabalhar. Participaram da blitz 100 homens, militares e civis, em 25 equipes coordenadas pela Corregedoria de PM. ''''Quem não se apresentar em nove dias será considerado desertor'''', disse o chefe do órgão, coronel Paulo Ricardo Paúl. Segundo a corregedoria, no ano passado 205 soldados foram excluídos da corporação, número baixo se comparado aos 11.175 procedimentos de investigação abertos. A maioria dos casos termina em punições disciplinares - foram 10.800 em 2006. Este ano, 161 PMs foram excluídos. A corregedoria abriu 5.381 investigações e 5.080 praças receberam punições disciplinares. Atualmente, 348 policiais estão presos no Batalhão Especial Prisional da PM, em Benfica, na zona norte. Beltrame negou que o esquema desbaratado ontem tenha relação com os baixos salários. ''''Isso (corrupção policial) é um problema histórico, que deve ter punição exemplar. Não tem relação com baixos salários. Salário não compra caráter'''', disse o secretário. ''''O Estado está fazendo o que pode pela polícia, equipando, lutando por uma melhor remuneração e por mais dignidade no trabalho para os policiais.'''' O presidente da Associação de Ativos, Inativos e Pensionistas das Polícias Militares, Brigadas Militares e Corpos de Bombeiros Militares do Brasil, Miguel Cordeiro, criticou a atuação da corregedoria da PM na operação. ''''Ela deve garantir amplo direito de defesa para todos os suspeitos. Sou contra ladrão dentro da PM, mas não admito que seus direitos não sejam respeitados. Ladrão também é ser humano.'''' O processo de punição dos envolvidos deve ser longo. Eles serão submetidos a procedimento administrativo disciplinar, que será dividido em averiguação, sindicância e Inquérito Policial-Militar. Em seguida, o processo é enviado a um conselho disciplinar formado por 30 oficiais, que recomendam ou não a expulsão dos acusados ao alto comando da PM. Se condenados na Justiça, os policiais podem pegar penas de até 30 anos de prisão. FRASES Mafran Vieira Procurador-geral de Justiça do Rio ''''Eles prestavam assessoria para o tráfico. Uma parceria intolerável. Eles cobravam para soltar traficantes presos, informavam os traficantes sobre as operações policiais e recebiam propina semanal'''' José Mariano Beltrame Secretário de Segurança Pública do Rio ''''Se tiver envolvimento de oficial, será investigado''''

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