Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

57% das estradas estão em situação regular, ruim ou péssima, diz CNT

Levantamento foi feito em mais de 107 mil km de rodovias federais e trechos estaduais, todos pavimentados

André Borges e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2018 | 12h12
Atualizado 17 de outubro de 2018 | 21h18

BRASÍLIA E SOROCABA - Mais da metade das estradas do País está em condição considerada regular, ruim ou péssima. É o que apontam os dados da 22ª edição da Pesquisa CNT de Rodovias, realizada pela Confederação Nacional do Transporte, nesta quarta-feira, 17.

Apesar do cenário insatisfatório, os dados mostram uma melhora em relação ao ano passado. De acordo com o levantamento, 57% dos trechos avaliados apresentaram estado geral com classificação regular, ruim ou péssima. Em 2017, esse porcentual foi de 61,8%. A CNT pesquisou 107.161 km, o que corresponde a toda a malha federal pavimentada e aos principais trechos estaduais, também pavimentados.  

De acordo com a CNT, a pequena melhora nos dados está atrelada ao critério de sinalização, que inclui placas de limite de velocidade, faixas centrais, laterais e defensas. Neste ano, o porcentual da extensão das rodovias com sinalização ótima ou boa foi de 55,3%. No ano passado, esse número foi de 40,8%. Segundo a instituição essa melhora de 14,5 pontos percentuais pode ser explicada pelos avanços nos programas dedicados à adequação da sinalização, sobretudo em rodovias federais.  

As condições da geometria da via são problemáticas: 75,7% da extensão avaliada foi classificada como regular, ruim ou péssima. O pavimento é deficiente em 50,9% da extensão total avaliada. 

Na edição deste ano, o levantamento aponta aumento de "pontos críticos", que passaram de 363 para 454 casos. Trata-se de trechos que apresentam situações graves e que podem trazer riscos à segurança dos usuários, além de custos adicionais de operação, por causa da possibilidade de dano severo aos veículos, aumento do tempo de viagem ou de despesa com combustível. 

Segundo os dados, as rodovias concedidas à iniciativa privada tiveram melhoria de 7,5 pontos percentuais entre 2017 e 2018. No total, 81,9% do estado geral dessas vias foi classificado como ótimo ou bom. No ano passado, esse índice foi de 74,4%. 

"Não temos dúvidas de que o poder público precisa reconhecer a importância da iniciativa privada e chamar os investidores para serem protagonistas dessa empreitada", declarou o presidente da CNT, Clésio Andrade, por meio de nota.

Motoristas apontam piora na qualidade de estradas com pedágio

O Estado de São Paulo tem as dez melhores ligações rodoviárias brasileiras, conforme o ranking 2018 da CNT, mas os motoristas veem os problemas aumentando na malha paulista.

"Quanto melhor a estrada, mais caro é o pedágio. O problema é que em algumas, mesmo pagando o pedágio, as condições não são boas", disse o caminhoneiro Inácio Vaz do Nascimento, de 49 anos. Trabalhando há três décadas como motorista de uma grande transportadora, ele conhece as estradas de grande parte do Brasil.

O caminhoneiro considera que o corredor da Rodovia dos Bandeirantes, entre São Paulo e Limeira, que lidera o ranking da CNT, faz jus ao primeiro lugar. "Em compensação, a Rodovia Marechal Rondon, a partir de Botucatu, que também é pedagiada, tem até buraco na pista. Na região de Bauru, tem ponto com asfalto esfarelando."

A mesma rodovia (SP-300) aparece em 8º lugar no ranking da CNT, mas no trecho entre Tietê e Jundiaí, considerado ótimo na pesquisa.

No ranking da CNT, a ligação entre Itapetininga (SP) e Ponta Porã (MS), pelas Rodovias SP-270 (Raposo Tavares), BR-163, BR-267 e BR-274 (Mato Grosso do Sul), aparece em 50º lugar e é considerada regular.

Nascimento afirma que a rota inclui o pior trecho rodoviário de São Paulo - a Raposo entre Itapetininga e Ourinhos. "Além de todo esburacado, não tem acostamento e o mato cobre a sinalização."

Ele conta que, há um mês, teve problemas com o caminhão após cair num buraco na Rodovia Raposo Tavares, próximo de Paranapanema. "Tropecei num buraco e caí no outro, e lá se foi um pneu", disse.

O motorista de entregas expressas, Carlos Lino Dipieri, de 38 anos, apontou desníveis no asfalto da Rodovia Washington Luis (SP-310), principalmente entre Rio Claro e São Carlos. A rodovia faz parte da ligação rodoviária líder no ranking. Estrada sem pedágio é ainda pior, segundo ele.

"A ligação de Salto de Pirapora (SP-364), Pilar do Sul (SP-250) e Capão Bonito tem muitos buracos e longos trechos sem acostamento."

Em outros Estados, a situação é pior. "A ligação de Betim a Divinópolis (BR-262 e MG-050), em Minas, está horrível, assim como a de Guarapuava e Campo Mourão (BR-466 e BR-487), no Paraná."

No ranking, essa rota está entre as dez piores, em 100º lugar.

O Departamento de Estradas de Rodagem (DER) paulista informou que a rodovia Raposo Tavares (SP-270) já recebe obras de melhorias, como duplicação de pista, novos acostamentos e sinalização, entre Itapetininga e Ourinhos. A SP-250 também já tem trechos em obras, próximo de Pilar do Sul.

Já a Agência de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp) informou que mantém fiscalização constante e rigorosa para manter os níveis de excelência da malha concedida e, quando um dos parâmetros de conservação não é atendido, aplica sanções e multas. Mais de 400 multas foram aplicadas desde junho do ano passado.

Recuperação de estradas do País custaria R$ 48 bilhões, diz CNT

A recuperação total da malha rodoviária do Brasil, com seus 107.161 quilômetros de extensão, demandaria um investimento de R$ 48,1 bilhões, segundo cálculos da CNT. Neste ano, o orçamento do governo federal para todos os tipos de intervenções nas rodoviárias, incluindo a construção de novas pistas, é de R$ 6,92 bilhões. Mantido esse ritmo financeiro, portanto, seriam necessários sete anos para recuperar as estradas do País, sem considerar a manutenção que demandariam no período. 

A 22ª edição da Pesquisa CNT de Rodovias, realizada anualmente pela instituição, traça um perfil preocupante das estradas brasileiras. Mais da metade das rodovias do País está em condição considerada regular, ruim ou péssima. Apesar do cenário insatisfatório, os dados apontam uma ligeira melhora em relação ao ano passado. De acordo com o levantamento, 57% dos trechos avaliados apresentaram estado geral com classificação regular, ruim ou péssima. Em 2017, esse porcentual foi de 61,8%.

São Paulo é o Estado com maior porcentual de estradas consideradas em ótima condição, com 54,7% nesta categoria. Amazonas e Acre são os mais prejudicados, com 40,6% e 35% das rodovias em péssimo estado, respectivamente.

A CNT pesquisou 107 mil km de estradas, o que corresponde a toda a malha federal pavimentada e aos principais trechos estaduais, também pavimentados. Dessa malha, 87,5 mil km são trechos administrados pelo poder público. Os demais 19,6 mil km são estradas concedidas à iniciativa privada. 

De acordo com a CNT, a pequena melhora nos dados gerais está atrelada ao critério de sinalização, que inclui placas de limite de velocidade, faixas centrais, laterais e defensas. Neste ano, o porcentual da extensão das rodovias com sinalização ótima ou boa foi de 55,3%. No ano passado, esse número foi de 40,8%. Segundo a instituição essa melhora de 14,5 pontos percentuais pode ser explicada pelos avanços nos programas dedicados à adequação da sinalização, sobretudo em rodovias federais.  

O presidente da CNT, Clésio Andrade, afirma que "a falta de investimentos é a principal causa das péssimas condições das rodovias" e que o País deve avançar em processos de concessão no setor. 

Para Edson Gonçalves, pesquisador do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas (FGV), a expansão da malha concedida passa pela necessidade de aprimoramento das regras de concessões. "É preciso haver alocação mais precisa do risco de demanda, com compartilhamento de riscos. Vemos que há movimentos para buscar isso", avaliou. "É preciso atentar para uma regulação econômica independente e técnica. São Paulo, por exemplo, tem ótimas rodovias, mas está renegociando contratos por conta de preços de pedágios. As regras do jogo podem evoluir, buscando equilíbrio de preços para o usuário, da companhia e do poder concedente."

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