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7 mil visitam a Casa de Detenção no último dia

Agitando uma carteira de trabalho, para provar o que dizia, a dona de casa, Claudina Verus, de 52 anos, implorava aos prantos agarrada ao portão de ferro: "Estou fazendo aniversário, por favor me deixem entrar." Passavam alguns minutos das 16 horas de ontem, horário limite para a última visita do público à Casa de Detenção do Carandiru, na zona norte e Claudina achou que não conseguiria realizar um de seus sonhos: "Sempre quis conhecer um presídio." Mas os funcionários foram sensíveis aos apelos da dona de casa - e de outros 200 retardatários - e decidiram prorrogar as visitas até as 17 horas. "Acho incrível, alguém insistir para entrar numa cadeia. Espero que tenham consciência do sofrimento que esse lugar representa", disse o coordenador da visita, Paulo Braga. Percorrer os corredores escuros e as celas minúsculas, cheias de entulho e fotos de mulheres nuas foi o programa escolhido por 7 mil paulistanos no feriado da Proclamação da República. Muitos estavam equipados com máquinas fotográficas e filmadoras para registrar os momentos finais do presídio construído em 1956, que será parcialmente demolido para dar lugar ao Parque da Juventude. Desde o dia 20 de setembro, quando a visita foi aberta, 97 mil pessoas passaram por lá. Aos 89 anos , Carmem Ianes se impressionou com o que viu. "Achei tudo muito triste", disse. "É preferível ver os filhos mortos do que presos num lugar desses", completou a amiga Rosa Ambrósio, de 65 anos, que perdeu dois filhos num acidente de moto. Já o ex-presidiário Jocenir Prado estava entusiasmado. Autor do livro Diário de um Detento, ele passou a oferecer os exemplares durante os dias de visitas, e já contava 1.100 livros vendidos. "Devia haver uma desativiação de presídio por mês." Ex- chefe do pavilhão 8, Manuel Carlos de Oliveira, que está aposentado, fez o programa a convite do filho e dos netos. Foi difícil conter a emoção: "É uma mistura de sentimentos bons e ruins. Muita gente morreu aqui dentro. Mas também fiz muitos amigos." Já o chefe de portaria, José Tomaz, há 23 anos na Detenção, era só bom humor. "Rapidinho como se rouba, estão todos em liberdade condicional", brincava, ao orientar a saída dos visitantes. "Isso aqui já teve 8 mil presos. Em dia de visita eu controlava uma multidão. Lidar com essa turminha é fácil." Menos entusiasmado, o agente Crescêncio da Silva, 34 anos de Carandiru, relembrou os maus momentos."Perdi vários colegas durante as rebeliões", contou. "Muita gente não sabe, mas o verdadeiro preso é o funcionário. O bandido raramente fica 30 anos na cadeia, já o funcionário leva 35 anos para conseguir a liberdade", disse, referindo-se à aposentadoria.

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