70% das mortes por intoxicação são por drogas de abuso

Estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com base em dados do Instituto Médico Legal ( IML) do Estado do Rio, revelou que as drogas de abuso, como álcool, cocaína e nicotina, foram responsáveis por 71,5% das mortes associadas à intoxicação. Os agrotóxicos responderam por 15,1% dos óbitos, seguidos dos medicamentos, com 14,2%. A capital fluminense concentrou 70% dos casos. O álcool, sem dúvida, foi a substância mais presente, entre todas as drogas de abuso: foi detectada em 96% das perícias feitas em vítimas fatais. Os laudos restantes revelaram quantidades de cocaína, sendo que a nicotina foi encontrada em 0,2% dos casos. Segundo a coordenadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) da Fiocruz, Rosany Bochner, a análise dos dados por gênero apontou diferenças. A existência de álcool foi dez vezes maior no grupo masculino - 2.282 homens ante 281 mulheres. "Se a intoxicação por álcool é mais comum no universo masculino, no caso de medicamentos, a situação se inverte, com as mulheres predominando", observa a pesquisadora, acrescentando que embora a pesquisa tenha revelado a existência de uma só substância na grande maioria dos casos suspeitos analisados, houve casos onde foram detectados até três ou quatro substância em uma só pessoa. Ainda em relação às drogas de abuso, a pesquisa apontou que ela começa a ficar mais representativa a partir dos 15 anos, quando responde por metade dos casos, e atinge a maior proporção na faixa de 20 a 29 anos, quase 70%. Embora a instituição policial tenha produzido 12.629 laudos entre 1998 e 2003, apenas os positivos, ou seja, 4.680, foram incluídos na pesquisa. ChumbinhoO fato de apenas 37% das suspeitas de intoxicação terem sido confirmadas pode ser explicada pela limitação do Serviço de Toxicologia do IML, e também pela natureza das substâncias, que depois de um determinado tempo no organismo dificilmente são detectadas. Sobre os agrotóxicos, Bochner atesta que a grande maioria das mortes deve ter sido causada pelo popular chumbinho, produto vendido como raticida, facilmente encontrado no mercado informal, até mesmo em camelôs, apesar de a legislação brasileira determinar venda restrita em estabelecimentos credenciados, com apresentação de documento do agrônomo, e apenas em sacos de 20kg. "Não sei que inventou que chumbinho é um bom raticida. Trata-se de um agrotóxico de alta letalidade, tanto que, na agricultura, é enterrado. Agora crianças, adolescentes, cachorros e gatos comem e morrem", alertou Rosany. Sem cheiro nem gosto, o produto lesa o sistema nervoso central, e tem um potencial tóxico tão forte que um só grama ingerido pode matar. A inalação também pode ser fatal. Não à toa, na faixa etária abaixo de 4 anos, os agrotóxicos respondem por quase 50% das mortes por intoxicação. A pesquisadora conta que pensou em fazer o estudo com o IML por ter estranhado uma queda do número de intoxicações causadas pelo chumbinho, registradas nos Centros de Informações e Assistência Toxicológica, fonte que alimenta o Sinitox. A redução ocorreu porque os médicos, que antes não sabiam como lidar com o problema e pediam ajuda aos centros, acabaram aprendendo a lidar com a situação e deixaram de fazer a notificação, que não é obrigatória. A confirmação do grande risco que ainda representa o chumbinho, possibilitada pelo estudo, foi exemplificada pela pesquisadora como exemplo da importância da colaboração dos IMLs. Segundo ela, o Estado do Rio foi o primeiro do País a divulgar os dados sobre os laudos toxicológicos. "Precisamos de outras fontes", diz ela, torcendo para que IMLs de outros Estados participem.

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