76% das mortes por atropelamento em SP ocorrem longe das esquinas

Nem sempre culpa é do pedestre: em 23% dos casos, carros subiram em canteiros de avenidas ou nas calçadas

Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2024 | 00h00

Dez anos depois da entrada em vigor do Código de Trânsito Brasileiro, 76% dos atropelamentos fatais investigados pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) em São Paulo no ano passado ocorreram em travessias "ao longo da via", e não em cruzamentos. Mas, em 26% do total de casos, a culpa não foi do pedestre: automóveis desgovernados invadiram canteiros centrais ou calçadas.    Quem é o principal culpado pelos atropelamentos em SP?  A CET fez a apuração porque, embora em nível nacional já exista pelo menos uma estabilização nos atropelamentos fatais, na capital a tendência foi inversa entre 2003 e 2005. Houve pequena melhora em 2006, mas a companhia considera a situação preocupante e promete tomar medidas como a mudança no tempo dos semáforos. Um cruzamento de dados do Ministério da Saúde e da Fundação Seade mostra que a capital teve aumento da curva de atropelamentos fatais entre 2003 e 2005, distanciando-se do resto do País . A taxa de mortes por 100 mil habitantes em 2005, de 5,8, foi maior que a nacional e a do Sudeste, equiparava-se à do Norte e só perdia para as do Sul e Centro-Oeste. De 2004 para 2005, houve aumento de 6% do número absoluto de mortes na cidade - a taxa por 100 mil habitantes ainda não foi calculada. Em 2006, foram 734, ou 2 por dia, uma redução pequena de 2%, em números absolutas. "Os números preocupam e merecem atenção", diz o diretor de Operações da CET, Adauto Martinez. Para desvendar os motivos da tendência de alta, a CET investigou diretamente 70 atropelamentos fatais em 2006. A alta incidência de casos de pessoas atingidas longe dos cruzamentos indica um misto de impaciência, imprudência ou dificuldades para fazer a travessia em locais adequados. A maior parte das mortes ocorreu entre meia-noite e 6 horas, horário de menor fiscalização. A desatenção - do motorista, no caso - ficou evidente num episódio ocorrido quinta-feira, quando o Estado acompanhou o trabalho do Corpo de Bombeiros, que faz o resgate em atropelamentos. Gilberto Moraes, de 55 anos, estacionou o carro na Rua Benedetto Bonfigli, via íngreme da Casa Verde, zona norte, mas o veículo desceu e atingiu sua irmã, a professora Ruth Moraes, de 50 anos - que, por sorte, só teve ferimentos leves. "Não tenho culpa. Parei o carro e ele desceu", disse Rodrigues. "Já é a quarta vez que um carro desce desgovernado aqui", afirmou Eurípedes Rosário, de 58, morador da Benedetto Bonfigli. "Falta manutenção na rua, que era de paralelepípedo e só recebeu essa cobertura aí. Até levantei minha calçada. O pior é que aqui tem saída de colégio." O consultor em engenharia de trânsito Horácio Augusto Figueira cobra há anos da Prefeitura um ajuste do tempo de semáforos para pedestres como forma de evitar atropelamentos. O atual, explica, obriga a pessoa a se deslocar à velocidade de 1,2 metro por segundo. Segundo a CET, já houve revisão do tempo de "sinal verde" em 400 pontos com semáforos, além da redução de velocidade em grandes corredores, como a Avenida Rebouças. A empresa diz ter adotado medidas para coibir a imprudência, como a colocação de gradis para impedir a travessia em local sem faixa. A CET promete agir contra situações em que pedestres têm de fazer a travessia de grandes avenidas em duas etapas, parando obrigatoriamente no canteiro. A primeira experiência deve ocorrer na Avenida Paulista, com nova sincronização dos sinais.

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