87% dos autores de ataques a escolas no mundo sofreram bullying, diz estudo

Pesquisa feita pelo Serviço Secreto americano diz ainda que adolescentes tinham fácil acesso às armas

PEDRO DANTAS, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2011 | 19h08

RIO - O psiquiatra americano Timothy Brewerton, que tratou alguns dos estudantes sobreviventes ao massacre de 13 alunos na escola da cidade de Columbine em 1999, apresentou nesta sexta-feira, 15, no Rio, um estudo realizado pelo Serviço Secreto americano cujo resultado apontou que, nos 66 ataques em escolas que ocorreram no mundo, de 1966 até 2011, 87% dos atiradores sofriam bullying e foram movidos pelo desejo de vingança. A mesma motivação alegada pelo atirador Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, que matou 12 crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio.

 

"O Bullying pode ser considerado a chave para entender o problema e um enorme fator de risco, mas outras características são importantes, como tendências suicidas, problemas mentais e acessos de ira. Não acredito em um estereótipo ou perfil para um assassino potencial nas escolas", afirmou.

 

A pesquisa apontou que em 76% dos ataques no mundo os assassinos eram adolescentes e tinham fácil acesso às armas de parentes. "Além do controle ao acesso às armas, recomendamos também que os pais fiquem atentos a alguns comportamentos, como maus tratos contra animais, alternância de estados de humor, tendências incendiárias, alteração de humor, isolamento e indiferença", disse Brewerton.

 

70% dos ataques aconteceram nos Estados Unidos. O levantamento apontou que, por dia, naquele país, 160 mil alunos faltam ao colégio com medo de sofrer humilhações, surras ou agressões verbais. O americano acredita que é possível prevenir os ataques e defendeu que cabe aos educadores identificar na escola as crianças com problemas mentais, que podem resultar em comportamentos violentos deste tipo. Ele afirmou que muitas vezes um transtorno mental não identificado pelos pais causa a falta de comunicação com os colegas, o isolamento social e, algumas vezes, o bullying. "Os problemas psicológicos associados com violência, como a esquizofrenia e o distúrbio bipolar, se manifestam pela primeira vez na infância. Este é o momento de interferir e tratar. Mais adiante esta atitude vai fazer uma imensa diferença no processo de crescimento desta pessoa", disse.

 

Ele deu uma palestras para psiquiatras da Santa Casa do Rio e alertou que as crianças são mais vulneráveis aos traumas psicológicos e podem desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático, depois de presenciar eventos violentos, como o massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio. "Elas passam a generalizar e pensar que o mundo é apenas um lugar perigoso e que a escola não é segura", afirmou. Segundo ele, o transtorno aparece dois meses depois do trauma sofrido pelo paciente e os sintomas vão do isolamento social até o desenvolvimento de distúrbios físicos e mentais.

 

Brewerton recomendou paciência aos pais. "Se as crianças querem dormir com a luz acessa, os pais devem deixar até que elas não necessitem mais. Nos primeiros dias de escola, os pais devem acompanhar as crianças e, se possível, até ficar com elas durante a aula. Apenas se o medo persistir, os pais devem procurar ajuda profissional", recomendou. O psiquiatra disse que a boa notícia é que geralmente as crianças são mais fáceis de tratar do que os adultos, pois não possuem outros traumas no passado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.