Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

A 178 km de SP, represa marca um abismo social

Menos de 10 ganham mais de 30 salários, só que a maioria vive da indústria de fios e cerâmica

Ricardo Brandt , ENVIADO ESPECIAL

03 de agosto de 2013 | 22h24

SANTA CRUZ DA CONCEIÇÃO (SP) - É a combinação de uma vida à beira do lago, em uma cidade sem violência nem congestionamento - privilégio de poucos - e uma população de 4 mil habitantes, predominantemente trabalhadores assalariados que vivem das cerâmicas, o principal motor da economia local. Isso faz de Santa Cruz da Conceição, a 178 km de São Paulo, um dos municípios com uma das maiores taxas de desigualdade social no Estado. Aliás, a disparidade aumentou: o índice de Gini subiu de 0,52 para 0,67 entre 2000 e 2010.

Com menos de dez moradores com rendimento nominal mensal superior a 30 salários mínimos, a desigualdade social de Santa Cruz da Conceição tem relação direta com a presença desses poucos ricos, que moram nos bairros do entorno da Represa Dr. Euclides Morelli. Batizado de Prainha, por causa da faixa de areia para banhistas, o grande espelho d'água atrai turistas e também moradores de alta renda que elevam a faixa dos mais ricos.

“Do lado de lá tem umas mansões. Aqui, a vida é boa, mas falta emprego”, conta Inês Liberto Dias, de 70 anos, que do lado pobre da represa descansa a varinha de bambu na água, ao lado da irmã, para lambari beliscar a isca. Do lado oposto ao canto do sossego das irmãs Liberto, um conjunto de casas à beira da represa, com píer avançando na água para as lanchas e jet skis, contrasta com a simplicidade da cidade. Em uma delas, mora um ganhador da Mega-Sena, que em 2009 recebeu uma bolada e se mudou para Santa Cruz.

Como não há centro nem periferia em Santa Cruz, menos de 500 metros separam o local de dois conjuntos habitacionais populares, onde mora boa parte dos 10% menos privilegiados da pirâmide social. “O grande problema nosso é encontrar emprego. Quando aparece uma oportunidade, eles fazem um monte de exigências. Em Santa Cruz, ou você trabalha na cerâmica ou na fábrica de fios”, diz Maria Lúcia Kojo, de 40 anos. Ela mora com dois filhos em uma casa construída pelo Estado e com prestações a perder de vista.

“Se aperta, eu corro para a prefeitura para pedir uma cesta básica. Mas fome, ninguém passa”, conta a diarista, que faz faxina para criar os filhos. Ela está na faixa dos 10% mais pobres, como a maioria dos moradores do Conjunto Ângela Remédio que, apesar da baixa renda, têm água encanada, esgoto, escola para os filhos e não vivem à margem da sociedade.

A pobreza de Santa Cruz da Conceição, com 35% de área não urbanizada, não reproduz quadro padrão de miséria extrema. Não há favelas, barracos de madeira, pedintes, crianças sem aulas. Para o prefeito Osvaldo Marchiori (PSDB), aliás, o maior desafio não é a pobreza, mas a possível instalação de um presídio.

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