A américa no espelho

Maior desafio da democracia americana é produzir soluções num contexto que deixou de ser de abundância para ser de escassez

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

Ato de afirmação da democracia nos Estados Unidos, por elevar um negro à Casa Branca apenas quarenta anos após o assassinato do líder do movimento dos direitos civis, Martin Luther King, a eleição de Barack Obama em novembro de 2008 foi também manifestação de repúdio a políticas e práticas antidemocráticas do governo de George W. Bush.

Adotadas em nome da segurança nacional, essas práticas atentaram contra preceitos e valores contidos no DNA da democracia americana: a limitação do poder do Executivo, o direito de defesa dos acusados de crimes, a proteção dos indivíduos contra buscas pouco razoáveis, abusos físicos ou mentais por parte dos agentes do Estado, a supremacia das liberdades individuais e do primado da lei.

Menos de dois anos passados após o triunfo de Obama, a democracia nos EUA se vê confrontada por difíceis desafios que, na verdade, já estavam evidentes antes dos estragos causados pelos oito anos da era Bush - estragos que foram agravados por suas consequências.

O maior deles é como fazer o Congresso voltar a produzir soluções para problemas reais num contexto que deixou de ser de abundância e tornou-se de escassez e faz da atual geração de jovens americanos a primeira que provavelmente terá, na vida adulta, um padrão inferior a de seus pais.

Em lugar de compartilhar a prosperidade ilimitada na qual nasceram e cresceram os americanos hoje com menos de 70 anos, trata-se agora de dividir custos econômicos e prejuízos políticos, entre os quais a perda de prestígio e credibilidade no mundo, causados por três mudanças para pior ocorridas nos últimos 15 anos.

A primeira delas, a forte polarização da política interna iniciada em meados nos anos 90 com as chamadas "guerras culturais", em torno de valores religiosos e morais, que reduziram o espaço para políticos centristas, espécie hoje em extinção, e para a busca de soluções de compromisso. A segunda, o fracasso em duas guerras que o país iniciou depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. A primeira no Afeganistão, justificada pelos ataques e endossada pela comunidade internacional, e outra no Iraque, desencadeada sob falsos pretextos. E, em terceiro lugar, a profunda crise econômica em que os EUA mergulharam dois anos atrás, para a qual não se vislumbra uma saída, depois de ter vivido décadas além de seus meios.

O cientista político Alan Wolfe, professor do Boston College, colocou o dedo da ferida no livro Does American Democracy Still Work? (A Democracia Americana Ainda Funciona?), de 2006. Segundo Wolfe, as últimas décadas trouxeram uma "mudança alarmante" na natureza da democracia americana, que põe em risco valores liberais como o respeito ao pluralismo, a aceitação da separação dos poderes e o reconhecimento dos direitos da oposição.

"Era mais fácil compreender as disputas sobre a democracia (americana) nos séculos 19 e 20 do que no século 21", escreveu Wolfe. "As brigas se davam entre elites privilegiadas. As diferenças entre elas, embora muitas, eram em sua maior parte econômicas." Os conservadores, que queriam restringir o escopo da política, enfatizavam o individualismo, a livre empresa, as iniciativas locais, a privacidade e a parcimônia no uso do dinheiro público.

Os liberais, que defendiam a expansão da política e falavam em proteção igual a todos sob um regime de leis, justiça, liberdade de movimento, de expressão, de associação e direitos civis.

Ao longo do século 20, os liberais conseguiram o que queriam e esgotaram sua agenda democratizante. Os conservadores, por sua vez, deixaram de lado seu antigo ceticismo sobre as massas e adotaram gradualmente a retórica do elogio ao homem comum.

"Na nova política da democracia, as grandes diferenças entre esquerda e direita deixaram de ser econômicas e passaram a envolver questões morais e religiosas. A direita tem prevalecido com mais frequência e apresenta-suas posições numa moldura populista".

Somem-se a isso os efeitos da revolução eletrônica. Se por um lado ela democratizou o acesso à informação, por outro facilitou a segmentação das pessoas em grupos ideológicos de pensamento aparentado ou único, que operam contra a dinâmica democrática da formação de consensos a partir do exame de idéias divergentes num mesmo espaço de debate.

O resultado são eleitores que participam pouco e são desinformados sobre os temas em discussão, líderes que desrespeitam as regras sem medo de represálias e partidos políticos que estão perdendo a capacidade de mobilizar os cidadãos e tornaram-se parte de uma preocupante nova dinâmica de busca do mínimo denominador comum na democracia nos EUA.

É nesse contexto que surge o Tea Party, um movimento que, a pretexto de levar o país de volta às suas raízes do governo limitado e sob o direto controle dos cidadãos, emprega as táticas do populismo, turbinadas pela multiplicidade dos meios de comunicação instantânea, para promover iniciativas reacionárias, que renegam a ciência, são frequentemente racistas e mantêm os americanos no escuro sobre os desafios que seu país enfrenta.

Entre eles, o de ser hoje uma nação em relativo declínio, num mundo em que os novos atores emergentes não comungam os valores liberais nos quais se fundam a democracia americana.

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