A antropologia por trás do Bope

Policial de elite estudou os motivos de quem tenta entrar no grupo: auto-realização e gosto pelo risco estão entre eles

Márcia Vieira, RIO, O Estadao de S.Paulo

21 de dezembro de 2008 | 00h00

A unidade vista como uma ilha de excelência dentro da combalida Polícia Militar do Rio de Janeiro existe há exatos 30 anos. A fama só veio a reboque do polêmico Tropa de Elite, de José Padilha, sucesso de bilheteria de 2007 que revelou, entre outras coisas, os bastidores do treinamento dos homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope. Para se tornar um Capitão Nascimento, como o personagem de Wagner Moura, é preciso suportar humilhações, ter uma resistência física extraordinária, agüentar caminhar horas a fio com os pés feridos, dormir apenas duas horas por dia e passar a madrugada mergulhado em água gelada. Quem não agüenta - a maioria - "pede pra sair". Quem suporta vira um "caveira". Paulo Storani, de 46 anos, é o caveira 69. Foi o primeiro colocado no curso de operações especiais em 1994 e o algoz de pretendentes a fazer parte dessa tropa de elite da Polícia Militar em 1996. Dos 32 inscritos no curso que comandou, apenas oito se formaram. "A turma era fraca", desconversa. Agora, como aluno de mestrado da Universidade Federal Fluminense, estudou, sob a ótica das teorias antropológicas, o que faz o policial do Bope ser diferente dos outros PMs. E o que leva um homem a procurar o curso. As respostas estão na dissertação Vitória sobre a morte: a glória prometida. O rito de passagem na construção da identidade dos Operações Especiais. Storani descobriu que são pessoas que adoram correr riscos. "No mundo civil, seriam aqueles que fazem esporte radical. Gostam de adrenalina." E há aqueles que depois que entram para a polícia buscam refúgio no Bope. "Eles são críticos sobre o que acontece nos batalhões convencionais. Querem cumprir bem seu papel na sociedade. Outros acham que só o curso do Bope vai deixá-los preparados para enfrentar o pior."Ele trabalhou também a perspectiva de o curso ser uma afirmação da masculinidade. "Dos 12 alunos (de 34 no período que ele estudou o grupo) que concluíram o treinamento, apenas um tinha entrado com essa idéia de fortalecer a imagem do macho. E ele acabou saindo." Numa entrevista com quatro policiais que continuam no batalhão, Storani quis saber se fazer parte do grupo reforçava a figura de "sujeito homem". A resposta de um deles foi definitiva: "É muito sofrimento. Não valeria a pena."Do ponto de vista antropológico, Storani acredita que esses homens buscam a auto-satisfação e cita o americano Abraham Maslow. Segundo Maslow, os indivíduos apresentam uma hierarquia de necessidades. Só depois de satisfeitas as mais básicas, como conseguir ar, comida e água, eles buscam segurança e depois afeto. No topo das necessidades está a auto-realização. "Os policiais do Bope têm essa pirâmide invertida. São pessoas que buscam a auto-realização primeiro para depois suprir todas as outras necessidades."NO INFERNODepois de dois anos analisando o curso, de acompanhar por quatro meses o treinamento e entrevistar os 34 alunos matriculados, Storani não tem dúvidas. "É um processo às vezes traumático. Os homens do Bope atuam na crise." Atual secretário de Segurança Pública da Prefeitura de São Gonçalo, no Grande Rio, Storani destrinchou todas as etapas da formação do policial do Bope. Em média, 80 homens se inscrevem no curso, criado no final dos anos 70 pelo coronel Paulo César Amêndola. Apenas 35 são selecionados. Destes, de oito a 12 chegam ao final.Os primeiros sete dias são chamados de "semana no inferno". São 22 horas diárias de treinamento. Só é possível dormir duas horas por dia, em intervalos de dez minutos. Perde-se, em média, um quilo e meio por dia. É nessa primeira semana que os alunos passam por uma conversão. "Por meio da humilhação e da exaustão, eles perdem a identidade e seu status social. Se quiserem alguma coisa vão ter de suar muito."Alguns enlouquecem no meio do caminho. Aconteceu no grupo que Storani estudou. Depois de dar uma resposta malcriada a um instrutor, "coisa que jamais se deve fazer no Bope", o incauto recebeu como castigo a tarefa de levar um eucalipto morro acima. "De noite, exausto, ele não falava coisa com coisa. Tentou até entrar na fogueira. Surtou. Acontece."Superada a "semana no inferno", os alunos passam para a fase de planejamento operacional e depois para a de execução. O curso acaba com a escalada, a uma temperatura de dois graus, do Pico das Agulhas Negras, com 2.791 metros de altura.

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