A arte que reaviva a fé nas igrejas de São Paulo

Pela cidade, templos reúnem obras de Benedito Calixto a Alfredo Volpi

Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

04 Agosto 2009 | 00h00

Visitar as igrejas da capital paulista já virou mais que um passeio religioso. Muitas guardam verdadeiras surpresas, como telas de artistas renomados e afrescos. "As obras sacras contribuem para a mística do templo e a religiosidade dos fiéis", diz o cônego Severino Martins da Silva. A simplicidade da Capela do Cristo Operário, no Ipiranga, zona sul de São Paulo, contrasta harmoniosamente com a riqueza artística de três murais criados por Alfredo Volpi (1896-1988) no altar central. Pintado na década de 50, o afresco lateral esquerdo traz José ensinando técnicas de carpintaria a Jesus, enquanto Maria contempla a cena de uma janela. Na pintura ao centro, Cristo abre os braços diante de uma construção mista de fábrica e igreja. À direita, Santo Antonio prega aos peixes. O artista abusa dos tons fortes de azul, verde, marrom e vermelho. As bandeirolas e o traçado geométrico característicos da obra de Volpi aparecem na forma triangular dos peixes e do telhado da fábrica. Também são seus os vitrais geométricos dos quatro evangelistas. Uma fábrica de móveis funcionava ao lado da capela, formada por uma cooperativa de trabalhadores em que todos recebiam o mesmo salário. Há ainda afrescos da húngara Yolanda Mohalyi (1909-1978) e esculturas da russa Moussia Pinto Alves (1910-1986). Os jardins foram projetados por Burle Marx (1909-1994). Na Igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério, região central, o projeto arquitetônico e os afrescos são de Fulvio Pennacchi (1905-1992), feitos na década de 40. Em tons de rosa pálido, azul-claro e bege, cada altar lateral traz cenas da vida de Santa Rita e São Francisco. Como pano de fundo, Pennacchi escolheu cenas campestres, uma referência à Toscana, sua região de origem. As delicadas esculturas em tom ocre de Galileo Emendabili (1898-1974) conferem singeleza ao local. Um enorme afresco de Cristo crucificado ocupa o altar-mor. Na parede oposta, cenas do julgamento final com dois registros superpostos: Jesus e os apóstolos acima, e o Paraíso e o Inferno na parte de baixo. Na Igreja Mãe do Salvador, mais conhecida como Cruz Torta, em Pinheiros, na zona oeste, hastes de concreto se cruzam no altar e formam inúmeras cruzes na obra Ascensão, de Maria Bonomi. "É meu primeiro projeto em concreto. Os elementos verticais e horizontais representam os vários estados da alma. O ser humano caminha rumo à subida aos céus", diz a artista. Paredes de vidro suavizam o peso do concreto. No centro, um crucifixo sustentado por uma corrente é iluminado pela claridade vinda da abertura de vidro. "Era um projeto arrojado. As beatas do bairro diziam que eu não podia fazer a obra porque era divorciada e comunista", conta Maria. Os tons sóbrios e os olhos expressivos das figuras dos afrescos do pintor romeno-franco-brasileiro Samson Flexor (1907-1971) causam impacto a quem entra na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Jardim Paulistano, zona sul. Na lateral direita, uma fila de 47 santos e mártires. Na esquerda, outras 47 pessoas que representam a humanidade em cenas variadas da vida. Os olhos das figuras se voltam para a Virgem no centro. Todos parecem caminhar a passos lentos e silenciosos rumo à ascensão. CALIXTO As pinturas sacras de Benedito Calixto (1853-1927) estão espalhadas por inúmeras igrejas paulistas. Na capital, três delas - Santa Cecília, Santa Ifigênia e Consolação - exibem suas telas. O artista buscava a representação fiel, recorrendo aos contrastes entre luz e sombra. Duas telas, uma na frente da outra, no altar da Igreja de Santa Ifigênia fazem um interessante contraponto. Anunciação a Maria nos tons claros do céu límpido, das flores e da paisagem bucólica. Já em Deposição de Cristo, a tela é inundada com cores escuras nas vestes e no céu carregado de nuvens como prenúncio de tempestade. ENDEREÇOS Capela Cristo Operário: Rua São Daniel, 119, Alto do Ipiranga; 3881-8805. Segunda a sábado, das 8h às 11h30 e das 15h às 18h; domingo, das 10h às 12h. Ponto alto: Três afrescos pintados por Alfredo Volpi, onde é possível ver a preferência pelo traço geométrico Paróquia de Nossa Senhora da Paz: Rua do Glicério, 225, Glicério; 3209-5388. Segunda a sexta-feira, das 8h às 11h e das 14h às 18h (não abre às terças-feiras); sábado, das 8h às 12h e domingo, das 8h às 18h. Ponto Alto: Afrescos em tons sóbrios de Fulvio Pennacchi com paisagens campestres como pano de fundo Paróquia Nossa Senhora Mãe do Salvador (Cruz Torta): Rua Professor Frederico Hermann Jr, 105, Alto de Pinheiros; 3031- 8554. Segunda a sexta-feira, das 8h às 19h; sábado, das 8h às 15h e domingo, das 8h às 19h. Ponto alto: A escultura de hastes de concreto que se cruzam de Maria Bonomi Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro: Praça Honório Líbero, 100, Jardim Paulista; 3081-0033. De segunda a sexta-feira, das 7h às 18h. Sábado, das 7h às 18h e domingo, das 7h às 20h. Ponto alto: Afrescos nas paredes laterais de Samson Flexor. Repare que os olhos de todas as figuras se voltam para a Virgem no altar principal Paróquia de Santa Ifigênia: Rua Cásper Líbero, 45, Santa Ifigênia; 3229-6706. De segunda a sexta-feira, das 8h às 19h; sábado, das 9h às 19h e domingo, das 8 às 12h30 e das 15h às 19h. Ponto alto: Telas de Benedito Calixto no altar principal Paróquia Nossa Senhora da Consolação: Rua da Consolação, 585; 3256-5356. De segunda a sábado, das 7h às 19h; domingo, das 7h às 21h.Ponto alto: Telas de santos pintadas por Benedito Calixto na Capela do Santíssimo Sacramento Paróquia Santa Cecília: Largo Santa Cecília, s/nº; 3331-5195. De segunda a sexta-feira, das 7h às 20h; sábado, das 8h às 13h e das 18h às 20h30. Domingo, das 7h às 14h e das 17h às 21h. Ponto alto: Telas pintadas por Benedito Calixto retratam passagens da vida de Santa Cecília

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