A banalidade do bem

Seu Pedro era um português rabugento, que tratava todos os moradores como se fossem usurpadores de seu castelo: o Edifício São Jorge, do qual era proprietário, síndico e zelador. "Pode ficar tranquilo, seu Pedro, que eu vou cuidar muito bem do apartamento", disse meu amigo Paulo, assim que recebeu as chaves. "Não faz mais do que a obrigação e não lhe agradeço por isso", respondeu o velho, com o sotaque que trouxe do Alentejo na primeira metade do século 20, junto com uma trouxa de roupas, uma guitarra portuguesa e a fé no santo que viria a dar nome ao prédio, anos mais tarde. Foi em 1973, com o dinheiro ganho em três padarias, que o próspero imigrante construiu seu refúgio na Rua Apinajés. Deu um apartamento para cada um dos sete filhos e foi morar no térreo, com sua senhora. Com o tempo, as padarias fecharam ou foram vendidas, os filhos se casaram e se mudaram e seu Pedro passou a viver de aluguéis, cuidando da esposa doente e reclamando da decadência do mundo. As lendas sobre a mesquinharia do síndico corriam pelo prédio, sem se intimidarem com as grades ao pé da escada, as câmeras de vigilância ou a estátua de São Jorge, cuja lança erguida parecia lembrar aos moradores qual o espírito vigente no condomínio. A Dona Marli do 23, por exemplo, contava do ex-vizinho que havia sido intimado a comparecer ao tribunal de pequenas causas por devolver o apartamento sem trocar uma lâmpada de 60 W, queimada, na área de serviço. O Robson do 42 tinha certeza de que fora seu Pedro quem envenenara sua samambaia, com um cálice de aguarrás, por causa das folhas que sujavam o hall. Nem os portões do castelo seguravam o Macbeth da Pompeia, que mais de uma vez saiu na calada da noite para esvaziar pneus dos carros que avançavam centímetros sobre a guia rebaixada da garagem. E adivinha quem chamou a polícia quando desconfiou que aquele odor vindo do apartamento dos estudantes da PUC não era de incenso? Mas você veja só como é o ser humano: um dia meu amigo estava saindo para trabalhar e ouviu uma música belíssima na garagem, foi indo atrás do som do violão, se esgueirando por entre os carros, até que deu com seu Pedro atrás da coluna, sentado num engradado de cerveja, curvado sobre um toca-fitas CCE. "Que música mais bonita, Seu Pedro, que que é isso?" O velho levantou o rosto para responder, mas engasgou e tossiu. Meteu então a mão na boca, tirou a dentadura e disse: "É uma serenata de Schumann. Sou eu a tocar em minha guitarra portuguesa." Por um momento, meu amigo pensou que ele chorava, mas não deu tempo de descobrir, pois seu Pedro logo enfiou os dentes de volta, refez a carranca e disse alguma coisa sobre as faixas pintadas no chão da garagem.

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