A batalha dos presidenciáveis nanicos

Indignados por terem sido excluídos dos debates na TV, candidatos e partidos se viram para manter a campanha na ativa e ganhar estatura

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2010 | 00h00

Eles compreensivelmente rejeitam o rótulo. "Nanico" pode não ser desonra, mas não é exatamente elogio. O verbete "partidos nanicos" no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) define: "os que hajam conseguido eleger pequeno número de representantes, em especial, à Câmara dos Deputados".

Mas os pequeninos desta corrida presidencial querem superar o próprio nanismo e ganhar estatura, principalmente no Congresso. Afinal, de bancada em bancada, chega-se à do Jornal Nacional.

Zé Maria (PSTU), José Maria Eymael (PSDC), Ivan Pinheiro (PCB), Levy Fidelix (PRTB) e Rui Costa Pimenta (PCO) têm diferenças entre si. O que os une é uma espécie de grito dos excluídos, uma indignação por estarem de fora da cobertura maciça da imprensa e dos debates televisionados - exposição que, para eles, poderia ser o antídoto para o status permanente de pequenos. Já a imprensa argumenta que não lhes dá espaço justamente pelo fato de eles serem nanicos. Na pesquisa Ibope/Estado/TV Globo mais recente, nenhum deles chegou a 1% das intenções de voto.

Os presidenciáveis atacam com os recursos e os discursos que têm para escapar desse ciclo. É quase um "se vira nos 30" político: cada um terá, a partir de terça-feira, 55,56 segundos de propaganda. Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio (recém-desgarrado do nanismo, depois de uma aparição bem-sucedida no debate da Bandeirantes) têm, somados, mais de 20 dos 25 minutos diários do horário gratuito. Causar impacto em tão pouco tempo é a saída e o desafio.

Marketing de guerrilha. As cinco campanhas nanicas se organizam sem a figura já clássica do marqueteiro. Em todos os casos, os próprios candidatos supervisionam a confecção de seu marketing - Levy Fidelix e Eymael têm a seu favor o fato de terem empresas e experiência nessa área. "Como o tempo é pequeno, tenho que falar de maneira contundente", diz Fidelix, de maneira empolada. "Mas não sou o Enéas. Minhas falas têm mensagem e o povo simples entende." A grande aposta de Eymael é o relançamento de seu consagrado jingle em versões axé, milonga e sertaneja, para ser o ringtone de celulares simpáticos à causa democrata-cristã. Jingle que não perde a chance de cantarolar em suas aparições públicas.

Rui Pimenta é jornalista e conta com a estrutura do partido para formular sua propaganda. "Nosso principal veículo é o jornal Causa Operária", explica, checando seu iPhone, em um escritório apinhado de livros empoeirados. O semanal tem tiragem de 6,5 mil exemplares e, na edição mais recente, traz sete longas páginas com textos de Leon Trotsky, em um especial pelos 70 anos de sua morte.

Pimenta abriu mão do corpo a corpo com os eleitores e diz que só é candidato porque é assim que "as denúncias contra o sistema antidemocrático ganham realismo". Em sua equipe, a mulher Anaí Caproni é candidata ao governo de São Paulo e a filha, Natália, de 25 anos, faz a assessoria de imprensa. Na campanha de Fidelix, o filho Levy também assessora, assim como o filho de seu vice - ambos elegantemente vestidos e com gel no cabelo.

O comunista Ivan Pinheiro usa o mesmo instrumento, um jornal tabloide de quatro páginas. "Além disso, vamos fazer um programa de TV diferente de tudo que já se viu", promete o representante do antigo Partidão. "Somos o único partido que fala do mundo, não só do Brasil." São também dos poucos que defendem as Farc.

Zé Maria, do PSTU, não está tão empolgado com o horário gratuito. "Sabemos que, no fim, vamos atingir uma parcela pequena da população, porque falamos, principalmente, para nosso público, que são os estudantes e os trabalhadores."

Numa sobreloja em reforma, que se veste para ser a sede do partido, Zé Maria, candidato com o menor patrimônio declarado entre os presidenciáveis, faz uma confissão: "Subfaturaram meu Gol". "O menino que fez a declaração dos bens consultou uma concessionária, que disse que o carro valia R$ 16 mil. Mas vale R$ 20 mil. Quando eu for vender, podem usar isso contra mim", diverte-se.

Arma democrática, disponível para nanicos e gigantes, é a internet. Cada um a sua maneira usa seus sites e Twitters para chegar ao eleitor. Zé Maria quer, por exemplo, lançar uma campanha virtual para constranger as emissoras e o tribunal eleitoral a convocar todos para os debates. Pimenta pretende convidar os colegas excluídos para um encontro transmitido "por até mais de 100 sites".

Fidelix chegou a tuitar que recorreria à ONU para ser incluído nos confrontos na TV. "E a ONU vai me ouvir. Se eles ouvem até índio..." (Fidelix, aliás, parece ter obsessão por índios. Com gravata verde-amarela e seu caricato bigode em entrevista à TV Record News, afirmou ser contra a cessão de terras aos índios da Raposa Serra do Sol. "Pra quê tanta terra pra índio? Eles não fazem nada. Sequer votam").

Choque de gestão. Há uma clara distinção entre os nanicos no quesito propostas. Formam-se aí dois blocos extremos, dificilmente aplicáveis aos outros candidatos: o da esquerda, com Zé Maria, Pimenta e Pinheiro, com seus jeans e camisetas, e o da direita, com Fidelix e Eymael, com seus ternos escuros. Ainda dentro da esquerda, Pimenta se destaca por fazer oposição inclusive aos companheiros comunistas.

Mas as plataformas no lado vermelho da tabela são muito parecidas: reforma agrária e estatização radicais, expropriação de terras, auditoria e suspensão do pagamento da dívida, legalização do aborto, para citar algumas bandeiras.

Não é um programa de governo palatável, soa anacrônico, especialmente quando embalado em uma propaganda curta e mal diagramada. "É um paradoxo, na verdade. As causas são muito populares, as pessoas concordam com tudo isso, mas não temos votos mesmo assim", admite Pimenta. Outro paradoxo é a falta de coesão política entre eles, que inviabilizou uma aliança.

Os três esquerdistas definem suas agendas com foco em encontros com seus pares, com quem já é simpático à causa. Enquanto fazem o processo de convencimento em sindicatos e universidades, marcam a posição do socialismo no cenário político e torcem por um cenário que permita uma ascensão. Viajam relativamente pouco e sempre em avião de carreira. "É preciso muita paciência", resigna-se Zé Maria. E muita ideologia: as campanhas dos comunistas são as mais pobres, arrecadam pouco (os partidos não aceitam doações de empresas e bancos) e dificilmente fazem alianças.

Discurso afinado. Na outra ponta ideológica, está Levy Fidelix, que justifica sua candidatura com um temor. "Quero que a legenda cresça. E partido que não disputa eleição vira partido de aluguel." O PRTB tem 1,5 mil candidatos a todos os cargos no Brasil. "Esperamos eleger entre oito e dez deputados federais", diz. Para isso, as propostas são muito diretas.

Ele é contra o aborto, o casamento gay, a legalização das drogas. Propõe a criação do salário-família de R$ 510; de uma ressuscitada Marcha para o Oeste; de uma poupança de R$ 2 mil para todo brasileiro recém-nascido, resgatável em 21 anos; e a construção de dez usinas nucleares, para fins bélicos e energéticos. Ah, e o célebre Aerotrem, segundo Fidelix, copiado por Lula e transformado em trem-bala.

Eymael fecha o bloco conservador dos nanicos, com a campanha mais rica e estruturada, de quem tenta chegar à Presidência pela terceira vez. Baseia sua plataforma nos princípios da democracia cristã, liberdade, justiça e solidariedade. Quer um Ministério da Segurança Pública, como Serra, e um Ministério da Família, como prometeu a Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. Em entrevista recente, também na TV Record News, afirmou que suas duas primeiras candidaturas foram para firmar o PSDC no cenário nacional. "Nesta, queremos ir ao segundo turno. Se chegarmos a 5% nas pesquisas, ninguém segura." Eymael se recusou a falar com o Estado quando soube que a reportagem não seria somente sobre ele, seria sobre os nanicos. É compreensível que rejeite o rótulo.

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