A Bridget Jones de São Paulo

Tati Bernardi, a blogueira que virou escritora e roteirista de TV

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

Ela é de uma geração que não perdeu um capítulo do seriado americano Sex and the City e se diverte em tornar pública sua vida, seja em blogs ou nas páginas do Orkut. A grande diferença entre a publicitária paulistana Tati Bernardi, de 29 anos, e os milhares de blogueiros que existem por aí é o fato de ela ganhar cada vez mais prestígio à medida que expõe suas angústias com a vida moderna de São Paulo. Primeiro foi na internet e, depois, em dois livros, o mais recente, Tenho Vontade de Algo Que Não Sei o Que É, lançado há pouco mais de dois meses. E os livros abriram-lhe outras portas. Teve um blog no site da TPM, revista feminina da Trip Editora, e escreveu colunas para duas outras publicações da Editora Abril - a VIP, focada no público masculino, e a Viagem & Turismo, para a qual continua colaborando com suas crônicas. Seu grande salto, no entanto, aconteceu no ano passado, quando foi chamada pela TV Globo para escrever roteiros. E estreou com o seriado Dicas de Um Sedutor, com Luiz Fernando Guimarães, que interpretava Santiago, um homem que entendia de mulheres e dava dicas de sedução.Com estilo parecido com o da escritora inglesa Helen Fielding, de O Diário de Bridget Jones - sucesso de público que virou filme -, Tati transformou-se em personagem de suas crônicas. A roubada de se enfiar numa balada cheia de boyzinhos na Vila Olímpia; a bizarrice de um relacionamento virtual; o zelador do prédio, o seu Zé, que controla a quantidade de namorados voláteis que aparecem em casa; a falta do que fazer num domingo ensolarado em São Paulo... Tudo isso está lá em sua crônicas. E os leitores se identificam. Na sua comunidade do Orkut há 2.700 integrantes, a maioria de jovens garotas entre 18 e 25 anos. "Tati consegue ser engraçada, escrevendo sobre as próprias roubadas. Ela parece sempre estar no lugar errado", diz Antonio Prata, escritor e colunista do Estado. "A sorte é que resolveu escrever sobre isso." Seu site (www.tatibernardi.com.br) tem 37 mil acessos por mês. Tati começou a colocar suas emoções no papel porque percebeu ser essa uma boa forma de se distanciar um pouco do sofrimento, de organizar o caos interno. "No início, fazia isso mentalmente", conta. "Lembro quando meu avô morreu, eu tinha 12 anos. Estava no velório, quieta, olhando a cena e, ao mesmo tempo, narrando silenciosamente para mim mesma o que acontecia ali, como num livro." Aos 19 anos, ao começar a estagiar numa agência de publicidade, passou a escrever. No meio do caos da criação de uma conta, por exemplo, parava tudo e produzia um texto rápido. "Era um desabafo e me acalmava. Era também uma maneira de eu existir."Ela explica melhor: "Sempre fui muito tímida e magrinha. No colégio, parecia que eu não existia e escrever foi a forma disso acontecer." Tati sempre passou seus textos para amigos, conhecidos e até desconhecidos lerem. "Ela trabalhava na agência, mas não diretamente comigo, mesmo assim, recebia seus textos", diz Pedro Cabral, CEO da Agência Click, onde Tati era redatora. Mas, um dia, ela apareceu na sala dele para pedir demissão. "Disse que precisava ficar em casa para escrever seu livro ", conta Cabral, que na hora achou uma alternativa. Propôs que Tati ficasse em casa por um ano, ainda recebendo pela agência, e, em contrapartida, ela escreveria, além de seu próprio livro, um sobre a Click. Ela topou na hora. Assim saíram Click Aqui, edição comemorativa dos 10 anos da agência, e A Mulher Que Não Prestava, o primeiro livro de crônicas da escritora. Este último foi parar nas mãos de Alexandre Machado, marido de Fernanda Young, ambos criadores da série de sucesso da Globo Os Normais. "Mandei para ele o meu livro e então começamos a trocar e-mails." Tati aproveitou para tirar algumas dúvidas que a atormentavam. Segundo ela, os namorados que apareceram na sua vida se apaixonavam primeiro por seus textos. E o problema é que a convivência, digamos, quebrava o encanto. "Perguntei ao Alexandre se ele também tinha passado por isso. Pensei que talvez fosse um fardo da profissão. Mas ele me disse que não, que eu deveria ser mesmo chata."A troca de e-mails acabou levando Tati para a TV Globo. Por conta das inúmeras reuniões com os demais roteiristas que trabalhavam no projeto, ela se viu obrigada a mudar para o Rio. Ficou lá seis meses. "Odiei o Rio."Mas por quê? "Não é minha terra. É uma cidade que puxa as pessoas para fora. Elas são felizes andando na praia e tomando chope na calçada. Eu preciso estar mais interiorizada para trabalhar. Gosto de me esconder nos cafés das livrarias de São Paulo, onde realmente me divirto." Tati é do tipo que não gosta de ficar muito tempo longe de casa, no seu caso, um apartamento de 40 metros quadrado, que comprou recentemente em Perdizes, bairro residencial da zona oeste de São Paulo. Filha única, é muito apegada à mãe. Mora a poucas quadras da casa dela, onde almoça pelo menos três vezes por semana. Tati morou na Rua Dias Ferreira, no Leblon, uma das mais badaladas do Rio, recheada de restaurantes da moda, livrarias e atores globais. Mesmo podendo levar suas canelas branquinhas para passear por ali, onde muitos paulistanos adorariam estar, ainda assim, ela prefere Perdizes. "No Rio não arrumei namorado. Não peguei nem gripe. Lá, não ter peito e bunda é o mesmo que não ter dinheiro em São Paulo. Um horror!" INSPIRAÇÃO CARIOCAEntre suas insatisfações com o Rio, o barulho do agito carioca rendeu-lhe um capítulo, Os Micos da Dias Ferreira, em seu último livro. "Eu já estava ficando louca. E ainda mais mal-humorada. E ainda mais reclamona. E ainda mais paulista escro... e com orgulho...", escreveu ela, referindo-se aos sons esquisitos que vinham de uma árvore na frente da janela de seu quarto no prédio antigo em que morou na Dias Ferreira. Ela achava, na verdade estava convencida, de que eram de ratos. "Até que encontrei a filha do zelador na rua e ela apontou, com seu dedinho de quem tem 4 anos de idade e uma vida linda, que aquele som na verdade era dos macaquinhos da árvore."Mas foi graças à sua estada no Rio que ela aprendeu a cozinhar . "O serviço dos restaurantes cariocas é tão ruim, que resolvi ir para o fogão. Já sei fazer massas, saladas, sopas e omeletes." O Rio também serviu de inspiração para o projeto de um novo livro, ainda inédito, Ponte Aérea, em parceria com Vitor Patalano. "São histórias de uma paulistana no Rio e de um carioca em São Paulo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.