A busca por quem não voltou para casa

Amigos e conhecidos ajudaram na identificação dos corpos

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2001 | 00h00

Depois da tragédia, a dúvida. Famílias da Baixada Fluminense passaram a madrugada de ontem atrás de informações sobre filhos, maridos e irmãos que saíram para trabalhar na quinta-feira e não voltaram mais. Um dos casos mais dramáticos foi o de Rosângela Teófilo, de 48 anos. Ontem de manhã, ela procurava notícias da irmã, Rosana, no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu. Acabou sabendo pelo rádio que ela havia morrido no choque dos trens. "Não fui ao Instituto Médico-Legal porque era o último lugar que iria procurá-la", disse Rosângela. Os moradores das cidades-dormitório do Rio convivem há tempos com acidentes de trem. No Hospital da Posse, Lenice Apolinário, de 64 anos, aguardava notícias da filha Luciana, de 37, internada com fraturas nos braços. Ao mesmo tempo, lembrava do filho Lauro, morto aos 22 anos em 1996, quando caiu de um trem que viajava com as portas abertas. "Até hoje recebo uma indenização de R$ 100 da antiga Flumitrens (Companhia Fluminense de Trens Urbanos) pela morte dele. Quando vi o acidente pela TV, tremi", disse. "Aqui na (Estação de) Austin os acidentes são comuns", afirmou o cunhado do motorista Jerônimo Pereira dos Santos, de 50, morto no acidente. Ele disse que a família vai processar a Supervia, que administra a malha ferroviária do Rio. RESGATE A chegada do Corpo de Bombeiros ao local do acidente demorou cerca de 10 minutos, segundo várias testemunhas. Enquanto o socorro não chegava, os próprios moradores das casas vizinhas iniciaram o resgate dos feridos. "Eu mesmo tirei quatro pessoas de dentro do trem. Inclusive o Jerônimo, que ainda estava vivo e me reconheceu, mas não resistiu", contou o pintor Antônio Carlos de Jesus, de 38 anos, referindo-se a Jerônimo Pereira dos Santos, de 50, motorista de caminhão. Santos foi identificado pela sobrinha Rosana Jesus da Silva, de 19 anos, que mora perto do local da tragédia. A família do motorista se queixou do desaparecimento de seus documentos. Vários moradores disseram que os trens foram saqueados. O delegado Fábio Pacífico, responsável pelo caso, negou ter recebido queixas sobre sumiço de objetos. "A PM já estava no local e não reportou nada. Alguém já teria procurado a delegacia caso isso tivesse ocorrido." Algumas vítimas chegaram a ser identificadas por amigos. A dona de casa Érica Silva, de 25 anos, foi reconhecida por um funcionário do IML, que imediatamente avisou a família. "Ela foi comprar um nebulizador para o filho que estava com tosse. O marido e a mãe dela estão sedados, em choque", disse Ana Paula Lima, de 29, prima de Érica. Dos 101 feridos, ao menos 12 seguiam internados até ontem. Um dos casos mais graves era o de Ednir dos Santos, de 26 anos, que sofreu múltiplas fraturas.

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