A cada dez dias, um cassino caseiro é estourado em São Paulo

Criminosos alugam residências para servir de fachada a bingos clandestinos; polícia fechou 24 casas neste ano

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

31 Agosto 2009 | 00h00

A máfia do jogo de azar explora um novo filão na cidade de São Paulo. Os criminosos passaram a alugar imóveis residenciais, até mesmo apartamentos, para servir de fachada a bingos clandestinos. Neste ano, em média, um "cassino caseiro" com máquinas caça-níquel, videobingo e apostadores foi estourado pelas polícias Civil e Militar a cada dez dias. Bairros nobres da capital paulista - Lapa, Perdizes, Pinheiros e Itaim-Bibi, nas zonas oeste e sul - aparecem como antro da jogatina doméstica e ilegal, que resiste mesmo após a proibição das casas de apostas em todo o País, em 2004.Levantamento da 3ª Delegacia Seccional de São Paulo, feito a pedido do Estado, mostra que entre janeiro e o início de agosto foram flagradas 24 residências que funcionavam como bingos nas áreas oeste e sul (veja mapa). O balanço não contempla a operação policial realizada anteontem na Vila Mariana, na zona sul. Um imóvel da Rua Napoleão de Barros abrigava 23 máquinas caça-níquel, com R$ 13 mil "investidos" por apostadores, bebidas e até máquinas reservadas para os clientes preferenciais. Pelo esquema identificado pelos policiais, são alugadas para este fim casas de pequeno, médio e grande porte. A arquitetura residencial é mantida intacta para despistar. Os endereços que constam nos boletins de ocorrência registrados tratam desde mansões - como a localizada na Avenida Pedroso de Moraes, que espalhou pelos mais de cinco dormitórios 43 computadores de videopôquer - até casebres como o da Rua George Smith, na Lapa, que abrigava só duas máquinas. No mês passado, na região central, fiscais da Subprefeitura da Sé identificaram um bingo até mesmo dentro de um apartamento de 30 metros quadrados, no 1º andar de um prédio.Somente por meio de denúncias anônimas os policiais conseguem chegar aos locais. No entanto, quase nunca flagram os "cabeças" do jogo. "Precisamos ter certeza absoluta de que no local funciona jogo, caso contrário, se invadirmos podemos ser acusados de abuso de poder", afirma o delegado seccional, Jorge Carlos Carrasco. Os frequentadores dos cassinos caseiros são "órfãos" dos bingos tradicionais hoje fechados. As casas agora usadas pelo jogo são administradas por antigos proprietários de bingos, segundo apostadores. Até os funcionários que trabalham nos locais são os mesmos. "Nós somos avisados pelo telefone ou por e-mail quando uma nova casa é aberta", contou Denise (nome fictício), de 59 anos, frequentadora de todas as fases dos bingos, dos legais ao residenciais. "Éramos cadastrados quando os bingos funcionavam legalmente. Com esse catálogo, hoje somos encontrados", disse. A concentração de bingos domésticos em regiões mais favorecidas economicamente é explicada pelo público que frequenta esses serviços. A seleção dos clientes, a maior parte com idade acima de 60 anos, segue critérios parecidos com os utilizados em festas VIPs. É preciso ser convidado ou indicado para participar. Em alguns casos, até senhas são solicitadas.O bairro de Perdizes lidera o número de cassinos caseiros descobertos neste ano. As seis casas estouradas no local abrigavam, juntas, 236 máquinas caça-níquel. Em uma delas, uma senhora de quase 90 anos fazia apostas e precisou ser encaminhada ao distrito policial para prestar depoimento. Apesar da maior prevalência da terceira idade, jovens também são figuras cativas nesses recintos. Em seguida, no ranking de regiões de bingos caseiros, aparece o Itaim-Bibi, onde os exploradores do jogo mantinham 105 máquinas em funcionamento. DISCUSSÃO NACIONALEm junho, os deputados federais trouxeram de volta a discussão sobre a legalização dos bingos. Um dos argumentos é que a proibição fomenta o envolvimento do crime organizado na prática. Em São Paulo, algumas investigações apontam o envolvimento de policiais na máfia do jogo, como a descoberta semana passada, em Sorocaba, no interior - dez policiais são suspeitos. No Estado inteiro, conforme já anunciado pela Corregedoria da Polícia Civil, 90 homens da corporação estão sob a mesma acusação.

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