A casa de cristais e o bate-estaca de SS

Restaurador de vidro suspende atividades

O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2008 | 00h00

"Aqui nada se perde, tudo se transforma." Embora tudo por ali no finalzinho da Rua Galeno de Almeida venha se transformando bastante nos últimos tempos, o lema impresso no cartão de visitas da Cristais Eduardo não é cumprido. Por causa de dois empreendimentos imobiliários que cercaram o estabelecimento comercial que leva seu nome, Eduardo Augusto Teixeira Pimentel está impossibilitado de exercer o ofício ao qual se dedica há 70 de seus 83 anos - 40 deles no endereço pertinho da Avenida Doutor Arnaldo.Localizada entre as Ruas Oscar Freire e Arruda Alvim, a antiga casa de telhado estilo borboleta onde fica a Cristais Eduardo é um dos poucos imóveis que resistiram ao assédio dos construtores dos novos prédios residenciais que estão sendo erguidos pela incorporadora Sisan, braço imobiliário do Grupo Silvio Santos, na nova fronteira de um dos endereços mais valorizados da cidade.Com quase todos os imóveis vizinhos vendidos para a Sisan, a Cristais Eduardo está ilhada pelo cenário de terra arrasada, muito comum no início de obras de grande porte. Seria apenas uma vista ruim, após a demolição das casas vendidas e da terraplenagem, se o amplo canteiro de obras que tomou conta do lugar não estivesse causando estragos no antigo imóvel onde, há quatro décadas, seu Eduardo executa seus serviços, descritos logo após a frase de efeito no cartão de visitas: "Restauramos cristais, louças, prataria, biscuit e objetos de arte. Lapidação, Prateação, Metalização, Presentes." Com o início das fundações da obra, os bate-estacas chegaram a fazer tremer as prateleiras onde seu Eduardo mantém uma variedade de produtos de vidro e cristal expostos para venda. Mas esse nem foi o maior transtorno. Na fase de escavações do terreno, há cerca de dois meses, uma parede da oficina, que fica na parte de trás do antigo imóvel, começou a desabar, colocando em risco a segurança do lugar. As obras foram paralisadas pelos construtores, que chegaram a um acordo com seu Eduardo: a reconstrução da parte afetada do imóvel e o pagamento mensal de uma indenização por quatro meses, tempo previsto para a paralisação das atividades. Seu Eduardo conta que a construtora tentou comprar seu imóvel, mas que não aceitou por considerar a oferta insatisfatória."Se fosse uma moradia, seria mais fácil. Mas aqui é um ponto comercial. Minha clientela está toda por aqui e sabe onde estou. Mas, pelo que ofereceram, não pude aceitar." Ele, no entanto, não revelou o valor oferecido. Procurada pela reportagem, a empresa do Grupo Silvio Santos não quis comentar o caso.Enquanto as obras continuam, seu Eduardo aguarda com ansiedade a reconstrução de sua oficina, mesmo sabendo que provavelmente a reforma terá a mesma imperfeição dos objetos quebrados que restaura e recupera: "Vidro e cristal é igual a uma mulher. Depois da restauração, fica igual a velha quando faz plástica. Fica bom? Fica. Mas nunca mais será como antes."

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