A coifa uruguaia

A situação era complexa e um tanto misteriosa: a churrasqueira da casa nova ficava numa varanda coberta e bem em cima dela passava a viga de sustentação do telhado. Ou seja, era preciso não apenas instalar uma coifa, mas uma coifa cuja chaminé fizesse a curva. Seria possível esse tipo de procedimento? Existiria jurisprudência na história dos grelhados? A fumaça aceitaria aquele desvio ou preferiria ficar toda ali embaixo, inviabilizando os churrascos e criando uma forma de lazer, a sauna gaúcha?Meia hora de Google e eu já não faria feio numa roda na Expocoifas: sabia as diferenças entre as de inox e as de galvanizado, a distância segura entre a saída da fumaça e a janela mais próxima, as vantagens do tijolo refratário. Só não sabia, ainda, se chaminés faziam curvas, de modo que agendei três orçamentos, sem compromisso.O senhor Leopoldo, da Yuri?s Coifas, fez uma careta terrível assim que bateu os olhos na viga. Tomou medidas, suou, bufou e depois de meia hora mostrou-me o rascunho de um trambolho com duas chaminés, que parecia a ilustração de um módulo lunar num livro do Julio Verne. Custaria caríssimo. Era horroroso. Senti pena. Seu Leopoldo não era feliz. Estava claro que não gostava do seu trabalho, tinha ido parar no ramo das coifas por falta de opção e secava a testa com um lencinho bege. O Pedrão, da Hipercoifas, era simpaticíssimo, do tipo que você fica com vontade de convidar para o churrasco - mas queria me enganar. Disse que o caso era irremediável, só pondo abaixo aquela churrasqueira e construindo outra, ao lado. Abriu então um folder e me mostrou a fotografia de um complexo que incluía ainda forno a lenha e de pizza, se eu quisesse eles também construíam uma piscina e alugavam touro mecânico, para eventos.Eu já estava pensando em desistir - quem sabe a sauna gaúcha não fosse tão má ideia? - quando chegou em casa o Neto, da Coifolândia. Olhou a churrasqueira e sorriu: "Isso aí é caso típico pra coifa uruguaia." Mostrou-me uma foto: em vez de trapézio, a coifa uruguaia era um triângulo retângulo, a chaminé saía pelo canto, evitando assim a viga. Neto era um erudito das coifas. Explicou-me todos os procedimentos, as possibilidades, traçou uma pequena história sobre o assunto. Imaginei-o a terceira geração de fabricantes de coifas, talvez o avô tivesse aprendido o ofício na Itália, numa ruela medieval, com o último remanescente da guilda dos coifeiros, inaugurada em 1354. Fiquei contente. O mundo é cheio de Leopoldos infelizes, de Pedrões malandros, mas também de gente como o Neto. Ele dedica a vida a fazer com que a fumaça entre por um buraco e saia por outro, e ninguém no mundo faz isso melhor do que ele. Ali estava um homem contente.

Antonio Prata, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

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