A dias do show, João Gilberto faz mistério - e ensaia

Mestre da bossa nova só sai à noite, de carro, e não revela nem à produtora quantas músicas vai cantar

Márcia Vieira e Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2008 | 00h00

O mistério faz parte da construção dos mitos. No caso de João Gilberto, é característica fundamental que cerca sua personalidade. Nem a idade - 77 anos - nem a descoberta em 2006 que era pai de uma menina de 2 anos, fruto de um namoro com a socialite carioca Cláudia Faissol, mudou a rotina do mestre da bossa nova. A poucos dias do seu show no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, João vive recluso em seu apartamento no Leblon, o bairro carioca das celebridades. Circula pouquíssimo pela cidade. Quando sai, o faz à noite e de carro. A obsessão pela discrição o fez incluir no contrato com o Itaú, que está bancando os quatro shows em São Paulo, Rio e Salvador, uma cláusula exigindo segredo sobre os termos da negociação. João, como se sabe, não dá entrevistas. Também não revela, nem mesmo para a Dueto, produtora carioca responsável pelos shows, quantas músicas vai cantar. Uma certeza para o amigo Nelson Motta é que ele já está ensaiando o repertório há muito tempo. João não pára de tocar. A vida em seu apartamento é um ensaio sem fim. "Antes de um show, ele fica em concentração total. Quando chega a apresentar a música ao público, é porque já está há dez anos aperfeiçoando", diz Motta. A expectativa da produção é que ele cante 20 músicas, como no show no Carnegie Hall, em junho. "Provavelmente será esse número ou mais. João Gilberto só costuma definir o roteiro no dia das apresentações", explica Angela Almeida, produtora executiva. Nelson Motta, com base nas últimas apresentações de João (ele tenta assistir a todas), arrisca a traçar um provável set list. "Ele sempre canta seus clássicos e três ou quatro novidades, ou seja, músicas que transforma em outras." Na apresentação de duas horas em Nova York, os clássicos foram Chega de Saudade,Wave, O Pato, Samba de uma Nota Só e Aos Pés da Santa Cruz, entre outras. Na linha "novidades", Deus Salve a América, versão de Braguinha para God Bless America, hino norte-americano não oficial, de Irving Berlin. Para os quatro shows, que fazem parte do projeto Itaúbrasil, em homenagem aos 50 anos da bossa nova, João também não escolheu ninguém para cuidar de seu figurino. Dos ternos, ele mesmo cuida - ao contrário de nove entre dez estrelas do show biz, não tem personal stylist. O mistério que ronda João atinge até quem está diretamente envolvido no show. Nem a produção do Teatro Municipal do Rio tem conhecimento de detalhes. Até sexta-feira, não havia sido marcada reunião entre técnicos da casa e da Dueto. Para o show de Roberto Carlos e Caetano Veloso, no mesmo palco e com a mesma produtora, que será dois dias antes da apresentação de João Gilberto, a reunião já foi realizada. Todos os detalhes estão acertados. A grande preocupação de João Gilberto é com a qualidade técnica do show. Para que tudo saia perfeito, ele mandou vir do Japão dois profissionais fundamentais: o engenheiro de som Ken Kondo, de 54 anos, e o stage manager Usami Toshihiko, de 52. João trabalhou com os dois nos últimos cinco anos em dez shows por cidades japonesas. É Toshihiko quem acerta o banquinho e o microfone nos lugares exatos que João gosta. Até sexta-feira ele não havia determinado a temperatura que deseja nas salas na hora do show. No Rio, ele poderá escolher entre ar-condicionado ligado ou desligado - não se pode escolher uma temperatura exata. No Carnegie Hall, João reclamou três vezes de um "ventinho" que soprava na altura da sua cabeça, o que levou uma certa tensão à platéia de 2 mil pessoas. Há quatro anos, durante um show lá mesmo, ele saiu do palco reclamando de problemas técnicos. Quinze minutos depois voltou e continuou a cantar. Desta vez, ele estava bem-humorado e, depois de um "please, esse ventinho" chegou a fazer música com a queixa soltando um "Olha o meu ventinho outra vez, please". Mesmo com a fama de mal-humorado, um show de João Gilberto é sempre um acontecimento. E o público brasileiro sabe disso. Em São Paulo não foi preciso mais do que 1 hora e 23 minutos para esgotarem os 1.612 ingressos colocados à venda. No Rio não deverá ser diferente. Na quinta-feira, por telefone, internet ou nas bilheterias do Teatro Municipal vão ser vendidos os 2.329 ingressos para o show do dia 24. Cada pessoa só poderá comprar dois ingressos. A Bahia receberá seu filho ilustre em setembro, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Oficialmente ninguém revela valores, mas empresários da área dizem que o cachê de João gira em torno de R$ 2 milhões. O contrato foi fechado em 18 de março. João recebeu 50% de adiantamento. Dois meses depois, rompeu com a empresária Carmela Forsin, que o acompanha há mais de uma década. O lugar foi ocupado pela atual namorada, Cláudia Faissol, 42 anos mais jovem. ROTEIRO O casal foi protagonista em 2006 de uma história que mais parece roteiro de filme hollywoodiano. Cláudia, então casada com o empresário de moda Eduardo Zaide, escondeu por mais de um ano que o pai de sua filha Luísa era, na verdade, João Gilberto. Um exame de DNA esclareceu todas as dúvidas. Cláudia e Eduardo se separaram e ela passou a cuidar de João, até mesmo de sua vida profissional. Os dois se conheceram quando ela fazia um documentário sobre ele. Cláudia também escreve poesia. Já apareceu até no Corujão da Poesia, encontro realizado uma vez por semana numa livraria do Leblon, com a pequena Luísa. João, é claro, não acompanhou a namorada e a filha. A expectativa quanto à volta de João ao Municipal não é só dos fãs saudosos, mas também dos amigos. Jards Macalé, com quem o cantor já travou muitas conversas de madrugada - "Já chegamos a nos falar por 12 horas seguidas, com pausas, claro" -, garantiu seu lugar há semanas. Sergio Ricardo, outro que desfruta de sua intimidade há anos, também faz questão de estar lá. "Esse é o momento em que se consagra uma invenção dele (a bossa nova). Ele tem direito a todas as láureas." SHOW NO RIO: Dia 24, no Teatro Municipal (Praça Marechal Floriano, s/n.º, Centro). Vendas a partir das 10 horas de quinta-feira. Preços: Frisa + Camarotes - R$ 2.100; Platéia + Balcão Nobre - R$ 350; Balcão simples - R$ 120; Galeria - R$ 30. Na internet, Ticketronics (www.ticketronic.com.br). Por telefone: (21) 3344-5500, no Rio; 0300-789 7800, em outros Estados

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