A dura vida de candidato à Casa Branca

Nenhuma lei obriga, mas a pressão da opinião pública impõe a norma: é lícito vasculhar tudo sobre a vida de quem quer ser presidente dos EUA

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2010 | 00h00

Depois de a candidata do PT à Presidência,Dilma Rousseff, ser questionada em um debate sobre sua saúde, na semana passada, ela disse ter considerado a pergunta "um pouco deselegante".

No dia seguinte, acabou vazando para os jornais uma reportagem relatando que Dilma havia se submetido naquela noite a exames no Hospital Sírio-Libanês. Seus médicos divulgaram uma nota atestando que a saúde da candidata é "excelente". Dilma foi diagnosticada com câncer linfático em abril do ano passado, teve um nódulo retirado e foi submetida a sessões de quimioterapia.

Nos Estados Unidos, o candidato republicano John McCain, que perdeu a eleição de 2008 para Barack Obama, viu-se forçado a abrir 1.173 páginas de histórico médico, de 2000 a 2008, para serem examinadas por jornalistas durante a campanha. McCain foi diagnosticado com câncer de pele em 2000 e teve tecidos do rosto e pescoço retirados.

A transparência em relação à saúde dos candidatos é apenas uma das áreas em que o nível de cobrança dos eleitores é bem maior nos EUA. Diferentemente do Brasil, lá os candidatos a cargos públicos são obrigados a prestar contas sobre suas biografias, seus rendimentos e de seus familiares, além de histórico médico. Não há lei que obrigue os políticos a fazerem isso. Mas a pressão da opinião pública é tão forte que eles são compelidos a divulgar dados, para se manterem competitivos na campanha.

Transparência com o passado dos candidatos também não tem sido o forte das eleições brasileiras. Nos EUA, McCain teve seu histórico de veterano da guerra do Vietnã dissecado nas eleições em que foi candidato. Em 2008, a Marinha divulgou todos os registros militares sobre a atuação de McCain. Ele ficou preso durante cinco anos e foi torturado por soldados vietnamitas. Ele já tinha abordado sua atuação na guerra em seu livro de memórias.

McCain era considerado herói de guerra e seus oponentes relutavam em criticá-lo. Mas alguns opositores acusam McCain de ter cometido crimes de guerra por ter bombardeado alvos civis em Hanói nos anos 60.

Aqui a oposição também reluta em criticar a atuação de Dilma na resistência à ditadura militar e os anos que ela passou na prisão, depois de participar de missões da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares.

Não há transparência sobre a atuação de Dilma durante o período. Está trancado desde março, num cofre da presidência do Superior Tribunal Militar, todo o processo que levou Dilma à prisão n a ditadura.

No Brasil, onde vários políticos eleitos tiveram os mandatos interrompidos por estarem doentes, não se exige que os candidatos prestem contas sobre sua saúde. O marechal Artur da Costa e Silva sofreu um AVC em 1969, quando estava no poder, levando o País a um período de turbulência. Tancredo Neves adoeceu na véspera da posse e morreu 38 dias depois.

Desinformados. Segundo Fábio Wanderley Reis, professor de ciência política da UFMG, a população brasileira ainda tem muito pouca informação política e por isso o nível de cobrança dos candidatos é baixo. "Como dizia o político Milton Campos, a opinião pública é apenas uma pequena parte do eleitorado", diz. "A opinião pública são aqueles que participam, enquanto o eleitorado é o grosso dos que vão votar."

Nos EUA, os candidatos abrem seus históricos de saúde, embora isso não seja exigido por lei. George W. Bush divulgou todos os seus históricos e permitiu entrevistas com seus médicos. Bush pai, Michael S. Dukakis, Bob Dole e John Kerry autorizaram entrevistas extensas com seus médicos e deram coletivas.

Fernando Lattman-Weltman, professor de ciência política da FGV do Rio, destaca as diferenças culturais entre os dois países. "Brasil e EUA estão em estágios diferentes de amadurecimento democrático, as eleições só agora estão adquirindo uma competição real e mobilidade", diz. "Mas dito isso, é importante ter na agenda a maior transparência e prestação de contas." A transparência sobre os rendimentos dos candidatos - e seus familiares - também é bem maior nos EUA. Na eleição de 2008, o republicano John McCain e os democratas Hillary Clinton e Barack Obama tiveram de divulgar rendimentos seus, de seus cônjuges e filhos dependentes. Aqui, não há esse tipo de cobran ça de familiares de candidatos.

Até cachorro. Já eleito, Obama divulga no site da Casa Branca, todo ano, uma declaração de de quase 10 páginas. Ele declara até o cachorro Bo, que ganhou de presente, ao custo de US$ 1.600.

O nível de vigilância dos eleitores também é mais baixo quando se trata de flagrantes de atitudes destemperadas dos candidatos. George Allen, candidato ao Senado americano, perdeu uma reeleição fácil em 2006 depois de ser flagrado ofendendo uma pessoa em um vídeo. Allen chamou de "macaca" uma americana de origem indiana, que estava na plateia de um comício seu. O vídeo do episódio "macaca", sucesso o YouTube, fez Allen perder de seu concorrente depois de ter largado com ampla vantagem.

No Brasil, o vídeo em que o governador do Rio, Sérgio Cabral, ofende um eleitor, não repercutiu em sua enorme margem de vantagem para a reeleição. Em um vídeo postado no YouTube, Cabral aparece, ao lado do presidente Lula, discutindo e xingando o jovem Leandro. "Não tem nego de metralhadora (na sua rua), não? Então deixa de ser otário, discurso de otário", atacou Cabral.

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