A dura vida de ex-radical do PT

Diante de cisões internas e especulações sobre o ocaso do PSOL, Plínio de Arruda define sua candidatura como 'tentativa heroica'

Malu Delgado / TEXTO e Epitacio Pessoa / FOTO, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Enquanto saboreia um suco de beterraba com laranja em sua casa em São Paulo, o suave e radical Plínio de Arruda Sampaio define sua candidatura à Presidência pelo PSOL como uma "tentativa heroica". Aos 80 anos, completados neste sábado, o ex-petista socialista ainda não pontua nas pesquisas. Perde até para José Maria Eymael, candidato do nanico PSDC, que atingiu 1% na pesquisa Vox Populi divulgada sexta-feira. "E ainda tenho Arruda no nome. Pode coisa pior que isso?", brinca.

A candidatura de Plínio, anunciada após uma série de divergências internas - entre elas, a oposição da presidente da sigla, a ex-senadora Heloísa Helena -, catalisa a encruzilhada política do partido e alimenta especulações sobre o ocaso do PSOL.

Marina. Em 2006, com Heloísa Helena candidata, o recém-criado PSOL chegou ao fim da disputa presidencial com 6,8% dos votos e a simpatia de mais de 6,5 milhões de eleitores. Agora, Heloísa defendeu união com o PV de Marina Silva, mas a direção do PSOL constatou que a aliança seria inviável diante da continuidade da política macroeconômica pregada pela ex-ministra do Meio Ambiente.

Depois de decidida a candidatura própria, Heloísa recusou-se a concorrer mais uma vez à Presidência e não apoiou a candidatura de Plínio. Recentemente, após a visita da presidenciável verde a Maceió, Heloísa derramou-se em elogios à colega de Senado. Em seguida, mandou um emissário a São Paulo para explicar a Plínio que ela respeitará as decisões partidárias.

Porém, o PSOL ainda não tem certeza se a ex-candidata à Presidência da República gravará programas de TV pedindo votos para Plínio. Quando questionado se a colega se empenhará na campanha, ele é sincero: "Acho que não. Mas não fará campanha para Marina."

Para o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas, Plínio poderia ser uma provável alternativa para um grupo de eleitores caso não houvesse a candidatura de Marina Silva. "Mas o partido não conseguiu, nas duas eleições que disputou, se colocar como alternativa de esquerda e não tem demonstrado viabilidade eleitoral", disse.

A cisão interna, acrescenta ele, tende a enfraquecer ainda mais a sigla. O PSOL segue a lógica da origem petista de formação de "tendências" e, para Teixeira, está fadado a repetir "velhos jargões da esquerda", com bandeiras e sem projeto real.

Matemática. "Sobre o resultado eleitoral, estou entre aqueles que preferem a qualidade dos nossos representantes que a medíocre matemática eleitoralista", disse Heloísa Helena em e-mail enviado ao Estado, quando questionada sobre o futuro do partido.

Sem comentar suas divergências com Plínio, a vereadora, que tentará voltar ao Senado, definiu assim essa disputa: "Eleição é processo complexo que sofre influências das condições objetivas, como as engrenagens do poder político, econômico e midiático." A vontade do povo, continuou a ex-senadora, é "muitas vezes baseada na complexa subjetividade humana e, portanto, a simbologia às vezes está muito acima da ideologia".

Plínio simplifica o que Heloísa parece querer dizer. Para ele, o governo Lula "surfou" numa relativa tranquilidade do cenário econômico, fez o "assistencialismo demagógico", criando nas pessoas de baixa renda a sensação falsa de bem-estar. O pobre pode comprar uma televisão, mas tem que esperar seis meses por uma consulta médica no SUS, e o filho dele receberá uma educação de péssima qualidade que inviabiliza a verdadeira mobilidade social. É esse o discurso que Plínio quer usar na campanha.

"Existe de fato um vácuo na esquerda no Brasil e no mundo, sobretudo se interpretarmos que há uma migração do PT ao centro. Por outro lado, o sistema eleitoral brasileiro e as regras do jogo eleitoral diminuem muito as chances de o PSOL crescer", afirma a cientista política e professora da Universidade Federal de São Carlos, Maria do Socorro Souza Braga. Segundo a professora, sem investir em um projeto alternativo consistente e factível e na formação de quadros, "o PSOL não conseguirá fazer o link entre o que é possível dentro da lógica da esquerda e se tornará um partido vazio".

Origem. Criado e composto basicamente pelos radicais do PT, o PSOL conseguiu eleger três deputados federais - Chico Alencar (RJ), Ivan Valente (SP) e Luciana Genro (RS) - não apenas pela onda Heloísa, mas, sobretudo, pelos frutos das biografias que construíram no partido do presidente Lula.

Agora, a expectativa otimista é que Plínio termine o pleito com 3% dos votos e o partido eleja uma bancada federal de cinco deputados federais e apenas uma senadora, Heloísa Helena.

"Ninguém dizia que Zapatero se elegeria na Espanha. Não pense que estou alimentando expectativas. O importante para nós nesta eleição é o debate", diz Plínio, com lucidez e racionalidade.

O candidato do PSOL diz que José Serra (PSDB), de quem se diz "muito amigo", e "essa moça Dilma (Rousseff, do PT), que é uma incógnita total, porque na hora em que ela largar da mão do Lula ninguém sabe o que vai ser", disputam a Presidência como um "projeto pessoal de poder".

Todos, inclusive Marina (PV), segundo ele, estão cumprindo o script da política brasileira que dá mais possibilidade de poder pela direita que pela esquerda.

"Suponhamos que eu tenha êxito nos debates e que exista no Brasil uma massa crítica de pessoas. Se localizarmos essas pessoas, nuclearmos e as transformarmos em militantes, e se tivermos a capacidade de montar um partido nacional neste próximo período, aí o momento será nosso", profetiza Plínio.

História. O desafio do PSOL, segundo o deputado Chico Alencar, que "bravamente" tenta a reeleição, é vencer o sectarismo. "O PSOL não pode ser um novo PSTU, no sentido de ser extremamente doutrinário, o que tem um valor, mas não pode levar isolamento total. E também não pode seguir o caminho do PT, que silenciosamente se tornou um partido adaptado, anódino, peemedebizado." O PSOL, completa o deputado, é uma necessidade histórica de haver no Brasil um polo de esquerda.

Diante da decisão do PSOL de não aceitar financiamento privado nem estatal, o deputado Ivan Valente se sente "uma espécie em extinção". "Como o partido não apela para o pragmatismo e não faz alianças que não sejam programáticas, nossas dificuldades são reais", diz ele. Para eleger um deputado em São Paulo, por exemplo, a legenda precisa reunir pelo menos 310 mil votos.

O fim da "era Lula", segundo Valente, aumentará as possibilidades do PSOL. "O Brasil é um dos países com a pior distribuição de renda do mundo. Isso é sintoma de que as coisas não mudaram muito", argumenta o deputado, otimista. Como afirmam os membros do Partido do Socialismo e da Liberdade, Marx dizia que a história só se repete como farsa ou tragédia. Por enquanto, o PSOL repete um caminho feito pelo PT na década de 80, mas um outro momento bem distinto da história.

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