A elite da elite no carnaval do Rio

Com dinheiro em abundância, Grande Rio, Vila Isabel e Beija-Flor formam um grupo à parte na busca pelo título

Sílvio Barsetti e Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

24 Fevereiro 2009 | 00h00

Luxo e fantasias ricas em detalhes. Essa foi a aposta de Grande Rio, Vila Isabel e Beija-Flor na primeira noite de desfiles do carnaval carioca. As três impressionaram pela beleza dos adereços, pela quantidade de plumas e paetês multicoloridos e pela organização. A demonstração de opulência pode, no entanto, ter atrapalhado a evolução das escolas, por causa do peso das fantasias. Na outra "ala" que abriu a festa na Sapucaí, a leveza das roupas permitia movimentos mais acelerados e até algum samba no pé: simplicidade foi a marca de Império Serrano e Unidos da Tijuca e até mesmo da Mocidade Independente de Padre Miguel.   Acompanhe a apuração dos desfiles de SP às 15hO contraste consolida a existência de dois grupos entre as escolas de elite do carnaval do Rio - de um lado, abundância de recursos; do outro, escassez. Isso não significa que mais ou menos dinheiro para o desfile afete a criatividade. Mesmo escolas com orçamentos mais baixos conseguiram momentos inventivos e agradaram. Mas o dinheiro, sem dúvida, divide os dois grupos. As agremiações com mais recursos apresentaram não só carros com melhor acabamento, mas também uma das "armas secretas" que podem decidir um desfile: as "alas de comunidade", formadas por moradores das localidades onde ficam as escolas. "O cara de comunidade canta o samba, seja bom ou ruim", afirma Maria Augusta, no carnaval há 30 anos, e para quem a grande quantidade de integrantes pode ser decisiva. Trata-se de uma troca. Com o dinheiro que arrecada com shows, empresas ou "padrinhos", as escolas mais abonadas pagam as fantasias dos moradores pobres, aqueles que desfilam por paixão. Em troca, eles têm de participar dos ensaios, muitas vezes com duração superior a três horas. Quem falta demais perde o lugar. A maioria cumpre o trato e, no dia do desfile, canta e samba com muita garra. O contraste é grande quando se compara com as escolas que vendem boa parte de suas fantasias para pessoas de fora da comunidade ou mesmo turistas estrangeiros.Outra possibilidade viabilizada pelo profissionalismo é o ensaio cuidadoso das coreografias. A Vila Isabel, por exemplo, treinou de madrugada os passos dos integrantes que vinham nos carros "O Bota Abaixo", "Theatro Municipal" e "Aída". O dinheiro também permite a contratação de bons artesãos - eletricistas, ferreiros, carpinteiros - e a compra de material de qualidade, essenciais para construir carros luxuosos.Quem duvida pode comparar as alegorias de Grande Rio, Vila Isabel e Beija-Flor com a singeleza do carro do polvo, da Império Serrano, feito com garrafas pet. No meio do desfile, duas pernas do "molusco" já não se mexiam, apesar dos esforços do pessoal de apoio. Tanto investimento se traduz em títulos. A Beija-Flor faturou um tricampeonato entre 2003 e 2005 e ainda levou as edições de 2007 e 2008. A Vila Isabel foi a campeã do carnaval de 2006, após 16 anos de jejum. E a Grande Rio, mesmo sem nunca ter vencido a disputa, esteve entre as três primeiras colocadas nos últimos quatro anos.ENTUSIASMONo geral, quando luxo e criatividade se apresentam juntos, os aplausos costumam ser mais intensos. Foi assim no primeiro dia de desfiles na Sapucaí com as "luzes de Paris" que acendiam na fantasia do casal de mestre-sala (Sidcley) e porta-bandeira (Squel) da Grande Rio, com o carro "Lago dos Cisnes", cujo destaque era a bailarina Ana Maria Botafogo, na Vila Isabel, ou com o gigantesco abre-alas da Beija-Flor.As belas alegorias das três escolas mais luxuosas, as coreografias das comissões de frente (a da Vila Isabel, com os passistas evoluindo em camas, teve mais repercussão) e o desafio das baianas da Grande Rio para girar com fantasias de mais de 30 quilos também chamaram a atenção no Sambódromo. A Grande Rio, por sinal, foi um caso à parte. A grandiosidade da escola que captou mais recursos (R$ 8 milhões) esbarrou em incidentes. Bruno Cezário, da comissão de frente, escorregou e caiu do alto da alegoria. Logo depois, a porta-bandeira Squel deixou o estandarte da escola tocar o rosto do mestre-sala Sidcley. No final da apresentação, o carro que levava as bailarinas do Moulin Rouge se desgovernou e feriu alguns foliões. Os problemas na escola de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, não significam que a chance de título esteja comprometida. Isso vai depender da observação e do rigor dos jurados. A Mocidade Independente também sofreu com imprevistos e seu carnavalesco, Cláudio Cavalcanti, o Cebola, foi atropelado pelo abre-alas antes do início do desfile e não pôde acompanhar a agremiação.

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