A escuta

A seguir, trechos de conversa telefônica entre Carla Patrícia de Andrade, a Carlinha, e de seu namorado, Washington da Nova Holanda. Na ocasião, ele, que pertence ao Comando Vermelho, estava preso no complexo de Bangu, no Rio. Carla: Tenho um pai de criação, entendeu... Washington: Tem um pai de criação, tu? E ele é o quê? Carla: Torre. ...Aqui em São Paulo ele faz parte da torre. Agora, como mandaram aqueles tantos pra Venceslau, ele foi pra Venceslau, mas talvez ele vá pra Federal do Paraná. Washington: Torre é o quê? Carla: Torre... Washington: Mas tu é o quê? TCC? Carla: Eu não. Washington: Tu fecha com quem? Carla: Não fecho com ninguém, eu não sou nada. Eu sou eu. Washington: Tu é tu, mas tu fecha com quem? Com os caras do PCC ou com a oposição? Tu fecha com o PCC? Carla: O pai é torre, meu. Washington: Torre é o cara que manda, o chefe, né? Carla: É lá de cima que fechava a responsa do bicho-papão, que as drogas são distribuídas pras ruas e pras faculdades. Washington: Entendi. Carla: Agora ele tá na tranca. Washington: Agora entendi. E tu tá se envolvendo com o que, tu? Papo reto! Dá um papo reto, assim, francamente, abertamente, com o que que tu se envolveu afinal de contas? Carla: Com o que eu me envolvo? Por exemplo: tem uma carga que vem da Bolívia para São Paulo pra ser distribuída pra São Paulo inteira, certo. Washington: Casa de quê? Carla: Uma carga. Não vou falar pelo telefone, desses branquinho e verdinho que vocês gostam, certo? Vem do Paraguai, da Bolívia, pra São Paulo, pro Brasil. Certo? Washington: Hum. Carla: Aí o que acontece? Chega aqui, eles têm que ir pra um lugar, muitas da vezes tem de ser refeito, pra se fazer alguma coisa a mais, pra poder tá sendo embalado pra poder tá sendo vendido, certo? Washington: E aí? Carla - Então, o que é que eu faço? Como é que vou te falar, as pessoas presas ligam e dizem que querem um quilo de alguma coisa. Eu sou só a intermediária. A pessoa vai ligar pra mim, vai falar que você quer um quilo, aí eu vou pedir pra tal pessoa ir buscar. No lugar que pessoa vai buscar vai ter uma pessoa com a encomenda pra entregar pro seu pessoal, entendeu? Washington - Entendi. Carla - Aí, depois, vamos supor, tem entrada de 25 dias, 30 dias, daqui 25 ou 30 dias você vai tá me ligando ou vou tá te ligando pra tá podendo pegar a moeda. Washington - Entendi. Carla - O pessoal vai buscar moeda e eu dou baixa na minha contabilidade, que eu não pego droga, pego um quilo e levo lá, entendeu? Washington - Não bota a cara em momento algum, entendi Carla - Agora a coisa tá difícil, tá tudo parado, porque tanto meu pai quanto meu padrinho está na tranca. Washington - Entendi. Carla - Mas tá zuado. ... Tem uma porção de serviço pra fazer. Washington: Mas tá aparecendo mercadoria boa? Carla - Ó, chegou uma, hoje é terça, né? Uma na quinta-feira da verdinha, que é boa pura, purinha, purinha, ela é bem verdinha só que aí a gente tá acabando de virar pra separar os pacotes, pra dividir pra tá podendo distribuir Washington - Entendi. E como é que faz pra ter uma amostra dessa parada aí? Se meus amigo quiser comprar aqui no Rio, como é que faz, o que nóis faiz? Carla: Se quiser, você leva uma amostra, experimenta, depois tem a gente daqui de São Paulo leva pra aí, entendeu? Washington: Mas é assim, só vende só de quilo, só? Carla: Só de quilo, que a gente chama de cesta, entendeu? Uma cesta é um quilo, duas cestas são dois quilos. Washington: Não, é que eu mesmo queria comprar uma parada dessa, mas sendo de quilo pra mim não dá não Carla: Mas a gente dá tipo assim, 25, 30 dias. Washington: Não, mas é pra cadeia mesmo. Carla: Mas, então, aqui em São Paulo, sabe o que eles fazem? Por exemplo, tem a droga que é pro comando, entendeu? Toda faculdade pega a droga do comando pra tá podendo ajudar o comando. Washington: Hum. Carla: Uma cesta vale R$ 4 mil. Então o normal é pegar ele e mais três irmão, entendeu? Pega uma cesta e aí eles dividem. Uma cesta dá R$ 4 mil, pega esses R$ 4 mil e divide por três, divide por quatro, e cada um dá um pouco. Washington: Entendi. Mas só tá vindo mato, não tá vindo açúcar? Carla: No comando é só açúcar e o mato é particular. Mato é outra coisa, não é do comando, mas eu vou falar uma coisa pra você: a do comando não tá boa, não vou dizer pra você que tá boa. Ela tá fraca. Tão refazendo tudo de novo. Washington: Ah, entendi. Eu queria pegar açúcar. Não queria pegar mato não. Mato tá dando muito pouco dinheiro. Açúcar tá dando mais dinheiro. Carla: E aqui que é que os caras faz. Pega a droga e mistura ecstasy na droga, entendeu? Washington: Hã, hã. Carla: Pra vender. Me diz uma coisa. Você faz parte de alguma coisa? Washington - Eu sou Comando Vermelho, pô. Sou Comando Vermelho até morrer, filha. Até debaixo d?água eu sou Comando Vermelho. Não deixo de ser comando de jeito nenhum Carla - Vocês pagam a sua caixinha também? Washington - Pago nada. Aqui nóis não paga esse bagulho não. Carla - Quem tá na rua paga? Washington - Nem quem tá na rua. Aqui não tem esses bagulho. Pra nóis isso aí é mancada. Não tem nada disso não. Carla - Agora com a multa foi pra mil. Washington - Foi pra mil. Era 500, não era? Ô, tá maluca, é ruim.

O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2008 | 00h00

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