À espera do esplendor cultural

Criar uma cultura à nossa imagem já era um projeto do modernismo, há 90 anos

Cacá Diegues, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2010 | 00h00

Uma verdadeira democracia não é feita apenas com a plena liberdade dos cidadãos. É preciso que, além de liberdade, cada um tenha também a oportunidade de usá-la. Sem oportunidade, a liberdade não serve para nada. Essa é a questão central da inclusão cultural, aquela que determina todas as outras discutidas ao longo do tempo, desde o conceito de cultura popular dos anos 1960, até o mundo digital e informatizado de nossos dias.

Desde McLuhan, sempre pensamos que o futuro estaria na "aldeia global" em que uma cultura hegemônica dominaria todas as outras. A luta contra essa hegemonia, em todas as áreas do imaginário humano, seria apenas uma obrigação moral previamente derrotada. A fatalidade desse cenário se confirmava nos caminhos que a cultura de massas foi tomando ao longo das últimas décadas do século 20, quando a música e o cinema norte-americanos ocupavam nossas mentes e corações. Essa síndrome nos preparava para a expectativa de um futuro em que seríamos, à margem da hegemonia, meros consumidores de cultura incapazes de produzi-la. Não foi o que se viu acontecer.

A globalização derrubou fronteiras, mas as portas que se abriram para dentro também deram passagem para fora. Essa mão dupla do trânsito cultural foi se impondo até a consagração definitiva da fragmentação, da cultura de nichos e segmentos que se impôs por meio da rede mundial de informação e conhecimento formada pela internet. A música africana contaminou a produção norte-americana, o cinema asiático conquistou a Europa, a literatura latino-americana influenciou textos japoneses e russos. A palavra world seria agregada aos substantivos de arte como um sinal de que ninguém é mais de ninguém.

No Brasil, faz pouco tempo que descobrimos enfim que não se tratava de proteger nosso intocável folclore, nem de organizar concertos de música erudita para favelados. Ao contrário, era preciso estimular o rompimento com o passado e promover a produção local para termos uma cultura à nossa real imagem, para nos conhecermos e nos curtirmos. De certo modo, esse era um projeto já embutido no nosso melhor modernismo do início do século 20 e em seu último descendente tardio, o tropicalismo dos anos 1960. Em nossas periferias, estavam vivas as chamas de uma cultura popular, pouco importa se "nacional" ou não, que representava de fato o estado da nação. Mesmo que nossa elite não o desejasse, o samba talvez tenha sido a manifestação pioneira desse fenômeno, rompendo as barreiras do preconceito e da proibição.

O Ministério da Cultura do presidente Lula compreendeu bem esse conceito de uma nova cultura popular, tanto com Gilberto Gil, quanto agora com Juca Ferreira, os primeiros ministros dessa pasta que não são estritamente "gutenberguianos".

É possível, como já fiz e faço, criticar medidas propostas ou atos executados pelos dois ministros, sobretudo quando cedem à volúpia do dirigismo. Mas seria injusto não reconhecer que ambos compreenderam a natureza desse novo tempo, entre a fragmentação ditada pelos novos mecanismos de conhecimento e a emersão de uma cultura periférica.

É difícil pensar em "romance burguês" ou "canção proletária" quando lemos ou ouvimos manifestações musicais, cinematográficas ou literárias tão especificamente individuais. Quando Alessandro Buzo ou Marcus Vinicius Faustini, dois exemplos de "escritores de periferia", em São Paulo e no Rio de Janeiro, registram suas experiências pessoais em textos, mais do que representando uma classe, estão dando conta de suas próprias vidas, sem o compromisso de um programa classista. Podemos, no máximo, dizer que foi daquele meio que vieram, mas não que sejam representantes dos outros que lá estão.

Por isso mesmo, é quase impossível retornarmos ao tropo tão brasileiro de "movimentos", como no século passado do modernismo, da bossa nova, do Cinema Novo ou do tropicalismo. Nessa nova cultura de massas (é preciso buscar outro rótulo), não há lugar para movimentos coletivos porque não há como estabelecer compromissos de qualquer natureza entre os artistas que a praticam. Eles serão sempre seres solitários, paradoxalmente cercados por uma multidão.

Como é pouco provável emergir no bojo de uma força coletiva que se imponha, esses artistas dependem deles mesmos e, por extrema contradição, do próprio estado do qual são cidadãos. Só este pode criar as condições necessárias para que tenham a mesma oportunidade e possam confrontar seu empenho e seu talento pessoais ao longo de suas carreiras.

Estou cada vez mais convencido de que essa participação do Estado na cultura deve ser principalmente a de estimular o consumo da população. Sempre vivemos de mecanismos direcionados para o patrocínio do produtor, um mimetismo do sistema europeu de financiamento da cultura no pós-guerra. Está na hora de financiar o consumidor, criar consumidores, multiplicando o consumo das obras e permitindo assim a natural multiplicação de produtores culturais.

No caso do cinema, vivemos hoje no Brasil uma tensão dramática entre o custo médio de um filme e o potencial de ressarcimento de nosso mercado. Muito raramente um filme brasileiro se paga com o resultado obtido no mercado, mesmo que seja uma obra de grande repercussão popular. Sobretudo porque somos um dos países mais pobres do mundo na relação entre população e salas de exibição. Com metade de nossa população, o México, por exemplo, possui o dobro de nossas salas.

Além das poucas salas, todas inseridas numa cultura de butique nos shoppings das grandes cidades, nossos filmes têm raro acesso à televisão e sofrem do controle precário do mercado de vídeo doméstico. Numa situação como esta, o Estado só pode contribuir decisivamente aumentando a capacidade de consumo de nossa população, com políticas de difusão nas diversas mídias, a preços convenientes.

Essa situação tende a se agravar com a nova era do conhecimento, no tempo da internet. Mesmo que a saudemos, ainda não sabemos como encará-la. No final da Idade Média, uma nova tecnologia mudou a história da Europa Ocidental. A invenção da imprensa punha ao alcance de todos o conhecimento, que era monopólio dos príncipes da Igreja e dos monges copistas. E ela foi um instrumento decisivo para a construção do Renascimento, um momento luminoso e culminante na história da humanidade. Para desespero dos pessimistas, talvez estejamos vivendo as vésperas de um novo período como aquele, diante da alfabetização audiovisual provocada por essa linhagem de novas tecnologias que vai do cinema à internet. Espero com impaciência por esse esplendor cultural.

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