A fábrica de entretenimento de Madonna estréia hoje no Rio

Show ?Sticky & Sweet? pretende ser uma retrospectiva de tudo o que a diva simbolizou nos últimos 25 anos

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

Tal e qual um Willy Wonka de maiô e fraque Givenchy, Madonna arromba a cena hoje às 21 horas no Maracanã de cartola e bengala, convidando o espectador a entrar na sua fantástica fábrica de entretenimento, uma usina de muita dança, pequenas perversões e bestiais truques audiovisuais. Sticky & Sweet, o show que a cantora americana estréia hoje no Brasil, pretende ser um tipo de retrospectiva para tudo o que a diva representou para o pop nos últimos 25 anos.   Veja especial sobre MadonnaSão 16 bailarinos, 12 músicos, duas horas sem intervalo, sem pausas para respirar, duas horas divididas em quatro partes cênicas: Pimp (na qual ela usa um cenário art déco e se remete ao universo do gangsta rap), Old School (debaixo de universo visual calcado na arte de Keith Haring, Madonna volta às suas raízes dance em Nova York), Gipsy (um pot-pourri das canções aflamengadas da diva, a partir de La Isla Bonita) e Rave (sucessão de canções e batidas de pulsão lisérgica, ultradançáveis).Madonna faz sua autodissecação pública com maestria, como se zombasse daqueles que fizeram dezenas de vezes a previsão do seu fim como artista no verão seguinte, um verão que nunca chegou. Expõe no palco todas as suas faces e contradições (forte e autoconfiante; frágil e sedutora e solitária e malsucedida com os homens; ultratorneada pela academia e um tanto anoréxica; sexy e insatisfeita), ela carrega seu circo mundo afora como um raio X da sua reinvenção, da sua doença camaleônica. Engajada na cabala e na política, ativa, ela faz sua pregação de forma subliminar durante todo o show. Entre as execuções de Like a Prayer e Ray of Light, por exemplo, são projetadas no telão cilíndrico que fica suspenso no alto da platéia VIP frases como "Somos de uma única religião: o espírito" e "Viemos da luz e para a luz voltaremos", enquanto os nomes de Krishna, Jesus, Alá, Buda e as divindades desfilam ante os olhos. Depois, esquizofrenicamente, emparelha Martin Luther King, Bob Geldof, Bono e Barack Obama, todos agentes da mudança que ela quer para o mundo.Madonna enfatiza ainda o lado fútil de sua música, em canções como Hung Up (sob um sample do ABBA), mas também ressalta seu lado rocker, soando quase punk rock e minimalista em Borderline. Potencializa sua imagem de vampira, se mostrando tiete e faminta antropófaga nos duetos virtuais com Britney, Justin Timberlake, Kanye West, Pharrell e outros astros que nasceram depois que ela já era estrela.De repente, o palco vira ginásio de boxe e dois bailarinos duelam até irem à lona, enquanto Madonna, como um duende de cabelos cor de cenoura, corre pelo palco e pula corda e coloca botas altas e deslizantes que a levam como um ser de outro planeta pela esteira do palco.Beija na boca uma de suas personas, encarnada por uma bailarina, um retorno àquela fase em que emprestou a radicalidade de Robert Mapplethorpe e escandalizou com corpos nus e atitudes sadomasoquistas. Madonna tem consciência de sua confusão existencial. Simula masturbação, sexo, mas escreve livros infantis moralistas e sofre com maridos violentos, machistas e oportunistas, como Sean Penn, Guy Ritchie e Warren Beatty. Foge de paparazzi para encontros furtivos com playboys e atletas, mas carrega pelo mundo os filhos, de quem exige as lições de casa.Na era de botox e Photoshop, também parece assumir o envelhecimento, surgindo com rugas e tendões expostos no telão, sem subterfúgios. A proposta parece ser justamente lidar com a imagem estilhaçada, embora saibamos que essa não será nunca a imagem definitiva que legará à posteridade. Madonna está em plena mutação.

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