A favela como ela é

Pouco importa se a casa não tem reboco, se o piso de um cômodo nunca é igual ao do outro ou se o sofá tem que ficar na cozinha. O que define se um barraco na favela é melhor do que o outro, para quem mora lá, não é a aparência - é o material e o tamanho. "Os piores são de madeira e só têm um cômodo. Casa boa é aquela de alvenaria e com dois quartos", diz o encarregado de obras Severino Barbosa, de 49 anos, o pedreiro mais experiente de Paraisópolis, na zona sul.Nas grandes favelas da cidade - como Heliópolis e Paraisópolis - há moradias de todos os tipos: desde sobrados com acabamento bem feito e garagem até os tradicionais barracos feitos de madeira. O "padrão favela", porém, é o meio termo. São barracos de 20 m2, com sala, cozinha e quarto. "Sem reboco do lado de fora e com telha tipo Eternit", diz Barbosa.A decoração também varia. Quem tem pouco dinheiro, se vira com os móveis doados por parentes mais prósperos ou pelos patrões. Os remediados preferem comprar móveis de segunda mão. E a "classe alta" vai às compras nas Casas Bahia. "Se fosse rica, compraria tudo lá", diz a dona de casa Maria de Lourdes Maciel, 59 anos, moradora de uma "mansão" de 58 m2 em Paraisópolis.Mas não há nada de caótico na organização dos móveis - apesar de a confusão de cores das paredes e das estampas dos sofás se esforçar para indicar o contrário. O JT visitou três barracos - um grande, outro tamanho padrão e um pequeno - de Paraisópolis, zona sul. Como em uma casa de classe média, a decoração de cada um deles segue, a seu modo, a regras bem definidas.Sofá, por exemplo, foi feito para ser coberto com lençol. "Senão suja", diz Maria de Lourdes. As paredes da sala servem para pendurar dois tipos de objetos. Ou aqueles que fazem lembrar dos filhos - fotos ou objetos trazidos por eles. Ou imagens religiosas, do Padre Marcelo Rossi ao Padre Cícero - mais comum em Paraisópolis, onde a maioria dos moradores veio do Nordeste. "Só para enfeitar, porque quem protege mesmo tá lá no céu", diz a dona de casa Zenaide Barbosa, 33 anos.Na mesa, há sempre um vaso de vidro - com flores artificiais. E não pode faltar um objeto que lembre o time do dono da casa - nem que seja um pequeno adesivo do Flamengo na geladeira.Televisão, fogão e geladeira são obrigatórios - cama para todo mundo vem depois. Quando há só um quarto, a regra é ter duas, uma de casal, para os pais, e outra de solteiro, para os filhos - dois, três, quatro. "Às vezes um deles dorme com a gente", diz a dona de casa Carmelita Novaes, 35 anos.Se não há espaço para uma sala e uma cozinha, o sofá e o fogão ficam em um mesmo cômodo. E para separar os ambientes, nada de portas - o que predomina nos barracos são as cortinas de renda. "Porque fica mais bonito."

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