A fina arte nos salões do poder

Governo, Prefeitura, Câmara e Assembleia têm em suas sedes acervos dignos dos melhores museus

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2009 | 00h00

Os austeros prédios dos poderes guardam mais que burocracia. Em corredores imponentes e espaçosas salas com grande pé-direito, obras de arte assinadas por célebres pintores e escultores brasileiros embelezam o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo, o Palácio Nove de Julho, onde fica a Assembleia Legislativa, o Edifício Matarazzo, endereço da Prefeitura, e o Palácio Anchieta, onde funciona a Câmara Municipal. O mais vistoso desses acervos, sem dúvida, é o do governo estadual. "Trata-se de uma coleção de 4 mil peças, extremamente importante dos pontos de vista histórico e artístico", explica a economista e historiadora da Arte Ana Cristina Carvalho, curadora do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. Os itens ficam distribuídos nas três residências oficiais do governo: o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, em São Paulo; o Palácio do Horto, no Horto Florestal, também na capital; e o Palácio da Boa Vista, em Campos do Jordão. "Nossas obras priorizam o percurso do Modernismo brasileiro, constituindo um acervo cobiçado por muitos museus." Entre as peças, há nove pinturas de Tarsila do Amaral, como Retrato de Mário de Andrade, óleo sobre tela de 1922, e Operários, de 1933. Embora nem todos saibam, é possível conhecer, in loco, parte dessa coleção. Diariamente, das 10 às 17 horas, 12 educadores ficam à disposição para mostrar algumas preciosidades aos visitantes do Palácio dos Bandeirantes. "Por meio das obras de arte, conseguimos contextualizar um pouco a história de São Paulo", afirma Isaura Maria Bonavita, diretora técnica do Centro de Monitoria do Palácio. No hall nobre, 14 peças permanentes formam oito painéis, assinados por Clóvis Graciano, Candido Portinari, Djanira Motta e Silva, Tomie Ohtake, Alfredo Volpi, Aldemir Martins e Antonio Henrique do Amaral. Este último é o autor de São Paulo, Brasil - Criação, Expansão e Desenvolvimento, um acrílico sobre tela de 16 metros de largura por 4,5 m de altura. "Em 1989 houve um concurso para escolher a obra que ficaria aqui", conta Isaura. "Ele (Amaral) ganhou e levou nove meses para concluir o trabalho." Integrar o seleto acervo do Palácio dos Bandeirantes não é tarefa simples para os artistas. Todos os anos, a curadoria de lá recebe de 40 a 50 propostas de doações de obras. "Aceitamos, em média, dez", conta Ana Cristina. Há uma explicação para tal cuidado. "Cada item adquirido representa um gasto de manutenção, afinal temos um compromisso patrimonial." As propostas de doações são submetidas ao crivo de um conselho, que analisa a obra e a biografia do artista. "Ao contrário de outros acervos do poder, bastante decorativos, aqui nos preocupamos com o caráter museológico e o valor artístico", frisa a curadora. "Nossa coleção foi, ao longo dos anos, sendo formada com o aval de especialistas. Não incorporamos peças ao léu ou por apadrinhamento." OUTRAS COLEÇÕES No Palácio Anchieta, no centro, sede da Câmara Municipal, estão outras preciosidades artísticas. Há 26 obras no catálogo, entre elas Retrato de Fábio da Silva Prado, de Cândido Portinari; Retrato de Manuel Deodoro da Fonseca, de Benedito Calixto; duas telas intituladas Fundação da Cidade, de Clovis Graciano; e cinco painéis conjugados de Aldemir Martins. Não existe um programa de visitação, como o que funciona no Palácio dos Bandeirantes. Há três anos, cinco restauradores transformaram uma sala da Câmara em ateliê. Ali, ao longo de meses, dedicaram-se a deixar tinindo os quadros que se encontravam degradadas pelo tempo. "Hoje temos muito amor por essas obras", afirma José Carlos Teixeira de Camargo Filho, coordenador do Centro de Comunicação da Câmara, área incumbida da manutenção do acervo. A Assembleia Legislativa mantém, desde 2002, o Museu de Arte do Parlamento de São Paulo. "São cerca de 1,3 mil itens", diz o curador, Emanuel von Lauenstein Massarani. "A proposta do acervo é humanizar a instituição, propiciando aos funcionários um ambiente melhor e, aos visitantes, uma atração cultural." A coleção está distribuída entre os vários ambientes do Palácio 9 de Julho, perto do Parque do Ibirapuera. Um ano depois da criação do Museu de Arte, foi fundado o Museu da Escultura ao Ar Livre, nos jardins do palácio, hoje com 73 peças - de mármore, bronze, terracota, chapas de ferro, alumínio e cerâmica. Já as obras expostas no Edifício Matarazzo, no centro, sede da Prefeitura, não compõem um acervo do próprio prédio. Fazem parte da Coleção de Artes da Cidade de São Paulo - atualmente com 2,8 mil peças -, mantida em reserva técnica do Centro Cultural São Paulo, no Paraíso, zona sul. Além de serem expostas esporadicamente, costumam ser cedidas para decorar órgãos públicos. Atualmente, nove obras estão no gabinete do prefeito Gilberto Kassab. De tempos em tempos, elas são trocadas.

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