A fuga de Kipling para São Paulo

Em 1927, o escritor anglo-indiano Rudyard Kipling, Prêmio Nobel de Literatura de 1907, planejou uma viagem particular ao Rio e a Buenos Aires, com a esposa, Curri. Porém, mal desembarcaram no Rio, foram assediados pelos intelectuais radicados na capital federal e levados de Seca a Meca. Ele foi exibido ao presidente da República, no Palácio do Catete. Houve uma recepção na Academia Brasileira de Letras, em que foi saudado em português. Agradeceu com um discurso em inglês, fazendo de conta que havia entendido tudo que ouvira. Tivera na meninice, em Bombaim, uma babá de Goa, colônia portuguesa na Índia, e dela ouvia palavras em português. Mas isso não o fizera conhecedor da língua. Escreveria, depois, um livro sobre o Brasil, que teria sofrível edição em inglês. Foi britanicamente simpático na coleção de gentilezas formais que distribuiu aos anfitriões. Mas na carta que daqui enviou à filha expressou seu incômodo com os exageros do acolhimento, sobretudo quando soube que os intelectuais do Rio haviam tomado a liberdade de escrever a seus colegas de Buenos Aires, pautando e programando sua visita àquela cidade. Finalmente, embarcaram para a capital argentina. Mas, na escala em Santos, desembarcaram de mala e cuia, desistindo de prosseguir viagem. Em vez disso, foram trazidos para São Paulo pelos engenheiros canadenses da Light no trole do precário funicular que sobe a serra, acompanhando as tubulações que levam a água da Represa Billings a Cubatão para movimentar a hidrelétrica Henry Borden, inaugurada em 1926. Em São Paulo, foi para uma fazenda do interior. Ele e Curri retornaram a Santos, no dia 15 de março de 1927, pelo trem da São Paulo Railway. Os engenheiros da ferrovia inglesa os acomodaram no luxuoso carro nº 7, uma confortável sala de estar, cujo fundo é de cristal, permitindo uma visão panorâmica da paisagem, durante toda a viagem, que fascinou o escritor. Encantou-o a obra de engenharia e os complicados equipamentos de subida e descida dos trens, na serra, mais de 700 metros na distância de poucos quilômetros. Kipling era fascinado por máquinas e mecanismos. Para homenagear os engenheiros da SPR, ele e Curri colocaram os respectivos autógrafos no livro dos passageiros ilustres da ferrovia, que eventualmente viajavam nos três carros palacianos, cuja restauração foi concluída nesta semana na Lapa. Mais: registrou no livro, de próprio punho, a modificação que fez no penúltimo verso da sexta estrofe de seu famoso poema Os Filhos de Marta. Num poema que homenageia os engenheiros das obras monumentais que trouxeram conforto e agilidade ao homem moderno quis homenagear os engenheiros da SPR. Marta labutava nos trabalhos da casa para o conforto de Jesus, mas foi a piedade de Maria que a Bíblia celebrou.

José de Souza Martins, O Estadao de S.Paulo

20 Julho 2009 | 00h00

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