Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

‘A gente não quer ficar espalhado’

Sem possibilidade de voltar para casa, moradores de Bento Rodrigues lamentam perdas, lutam para retomar a vida e ficar perto dos amigos

Luísa Martins, Mariana (MG)

21 Novembro 2015 | 21h00

MARIANA (MG) - Quando o vento estremece a janela ou faz uma porta bater, a criança acorda – em um quarto que não é seu – e pergunta, entre o sono e o pavor: “Tá vindo mais lama?”. Cíntia Gonçalves tem 7 anos e ainda não sabe direito o que aconteceu na tarde daquele 5 de novembro. Brincava na rua – um hábito infantil à moda antiga, típico dos pequenos vilarejos – e foi pinçada para o colo da mãe, que correu para a parte mais alta de Bento Rodrigues, distrito de Mariana mais afetado pela tragédia. 

De lá, elas, assim como grande parte dos 600 habitantes do local, presenciaram a mais inesquecível das cenas: um mar de rejeitos engoliu suas casas e enterrou suas memórias.

Sem possibilidade de voltar ao Bento, devastado e arriscado (há possibilidade de rompimento de outras duas barragens), a maioria dos moradores está provisoriamente acomodada em hotéis e pousadas de Mariana. A solidariedade garantiu que eles ganhassem quilos de roupas. A Samarco – responsável pela barragem de Fundão, que se rompeu, em um evento cujas causas não sabe explicar – cumpriu a obrigação de lhes assegurar um lugar para dormir.

No hotel Providência têm café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar. “Mas o que eu quero mesmo é voltar a fazer a minha comidinha”, diz Rosa Maurília Gomes, de 77 anos. “Aqui a gente está numa prisão.” 

A impessoalidade da vida que levam hoje, mais de duas semanas depois do desastre, tem incomodado dona Rosa e centenas de outras vítimas. No Bento, as moradas eram simples, mas tinham cômodos confortáveis, às vezes até uma varanda, uma horta, um jardim florido. Mas, mais importante que isso, guardavam histórias: o troféu do campeonato de futsal de 2006, a caixinha de fotografias do tempo do quartel, os livros herdados do avô. Tudo ficou para trás. Hoje, suas casas se resumem ao número de um quarto. 

Teto. Apenas seis famílias, até agora, foram realocadas para casas alugadas, providenciadas pela Samarco. Questiona-se, entre a comunidade, critérios claros de prioridade para essas remoções. Para quem morava no Bento, Mariana, com seus 58 mil habitantes, é cidade grande. Mas, na verdade, não há imóveis para todo mundo, afirmou o promotor Guilherme de Sá Meneghin, da área dos direitos humanos. Muito menos para quem, com todo o direito, quer seguir na companhia dos mesmos vizinhos.

Com isso, apesar da urgência em sair dos hotéis, uma casa, assim, em qualquer lugar, não serve. “A graça do Bento era que todo mundo ficava junto. A gente não quer ficar espalhado”, diz a aposentada Maria Irene de Deus, de 76 anos. 

Demandas afetivas

 

Informalmente, pelos corredores dos hotéis, as vítimas solicitam aos funcionários da Samarco e aos voluntários da Vale, acionista da mineradora, essas demandas afetivas. Quem tinha vista para a igreja, quer continuar tendo. Quem não tinha de subir escada, quer continuar não tendo. Só na sexta-feira houve uma reunião formal com a empresa para “escuta das famílias para identificação do perfil necessário da residência temporária”, sem garantia de que serão atendidas. Os grupos prioritários devem ser idosos, grávidas, deficientes físicos e mentais e famílias com muitas crianças. “Quando há uma casa disponível, a família vai lá, olha e, se não gostar, não fica. Se gostar, providenciamos a limpeza e compramos mobília, eletrodomésticos e mantimentos”, afirmou uma representante da Samarco.

Para o coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB), Joceli Andrioli, isso tudo se resume à violação de um direito fundamental: o direito à auto-organização. O ideal, diz o MAB, seria oferecer aos desamparados condição o mais semelhante possível ao estilo de vida que tinham antes de terem a vida manchada de marrom.

A mineradora está em todo o lugar, mesmo quando não está. Da primeira vez em que a reportagem tentou acessar a destruída Bento Rodrigues, mesmo com a autorização do Corpo de Bombeiros, foi impedida pela Polícia Militar. “Nossa orientação é a de que a imprensa só pode descer na presença de alguém da Samarco” (no dia seguinte, uma dupla de bombeiros agilizou a visita ao local, sem qualquer empecilho). Ao dar entrada no hotel, no mesmo endereço de dezenas de vítimas, repórter e fotógrafo foram alertados de que as entrevistas só poderiam ocorrer na calçada - nos corredores, estava proibido abordar os demais hóspedes. No portão principal, os voluntários se posicionam em uma mesa que pretende ser um serviço aos atingidos, mas também funciona como bloqueio à entrada de visitantes. Em três das seis casas alugadas pela mineradora, moradores se recusaram a dar entrevista. “Estou muito bem aqui”, sintetizou um deles, antes de fechar a porta.

Sandra recomeça em outros fogões

Meio-dia e o cheiro de frango ao molho pardo, preparado no fogão à lenha, começava a vazar pelas frestas do bar da Sandra e chamar moradores de Bento Rodrigues e trabalhadores da Samarco para o almoço. Nos fins de semana, em vez da refeições, a casa oferecia coxinhas - uma receita secreta, herança de família. Se um dia o movimento ficasse fraco, pensava a cozinheira Sandra Quintão, começaria a vender seus quitutes em Mariana. “E não é que me empurraram para cá mesmo, da forma mais cruel possível?”.

A avalanche de rejeitos arrastou a casa onde funcionava o restaurante e a pousada que, de vez em quando, abrigava turistas da Estrada Real, um percurso trilhado por colonizadores à época da descoberta do ouro em Minas Gerais. Sandra estava preparando cocada e pé-de-moleque quando sentiu a poeira tomar conta do ambiente. Um avisa o outro, que avisa o um, que avisa o outro… e o alarde estava dado: era preciso escapar dali. Abriu o carro, colocou lá dentro a filha Ana Amélia, de dois anos, duas vizinhas idosas e um amigo, para quem entregou a chave e pediu: “Leva esse carro embora daqui. Salva a minha filha”.

Achava que daria tempo de resgatar algumas das memórias da mãe, falecida há quatro anos. Sandra mantivera intacto o quarto da genitora. Mas viu que a situação, grave, não lhe permitiria ficar mais dois minutos por ali.  “O crucifixo, a Bíblia, as coisinhas dela… enquanto eu corria mata adentro eu pensava que aquilo tudo logo estaria soterrado. Foi tudo embora, meu Deus, que coisa selvagem”, lamenta.

Aos 43 anos, Sandra está recomeçando. O gerente do hotel onde está hospedada cedeu uma cozinha antiga, que estava desativada, para que a quituteira continuasse à beira do fogão - é o sustento da família, afinal. “Já começa a entrar um dinheirinho e a gente, aos poucos, vai retomando a esperança”.

Como as vítimas do tsunami de lama estão todas em Mariana, a clientela fixa permanece. Ao fazer a massa da coxinha, pingar o catupiry e rechear de frango desfiado (mil unidades haviam sido encomendadas só para este fim de semana), Sandra espairece. Não sabe quando será deslocada para uma casa alugada, mas, de antemão, está certa de que não vai gostar. “Não vai ser minha”.

Enquanto isso, se vê confusa para dar a resposta certa às questões da pequena Ana Amélia, curiosa sobre sua nova atmosfera. “Mamãe, a gente tá na casa de quem?”. É delas, agora. Mas, ao mesmo tempo, é de ninguém.

 

Rosa ainda quer sua independência

 

Bento era um lugar bom. Tranquilo, como dona Rosa gosta. Lá, vivia em uma pequena casa, onde gostava de cozinhar e brincar com sua velha amiga: uma máquina de costura, joia rara que, hoje, deve estar sufocada pela lama. Estava entretida com ela, cosendo meias e vestidos, quando o grito da filha rompeu sua concentração. Aos 77 anos, dona Rosa tirou forças de onde nem tinha e correu, sem virar para trás. “O desastre, quando é muito grande, a gente tem medo até de olhar”.

No quarto número 3 que hoje é seu sucinto endereço, dona Rosa reza toda noite pelos seus conhecidos, alguns desaparecidos, mas também acha brecha para agradecer. “Imagina se a tragédia acontecesse à noite”, propõe ela, “valei-me Deus, estaria todo mundo dormindo, ninguém saberia de nada e, a esta altura, não teria sobrado ninguém”. Sem pressa, a senhorinha fica tímida pelos corredores, olhando o movimento e exercitando a paciência. Quer sair dali, mas aceita esperar o tempo que for se puder retomar sua autonomia.

Dona Rosa é clara: “A vida que eu tinha, minha querida… eu quero continuar com ela, sabe?”. No Bento, ela morava sozinha, mas ladeada por duas vizinhas especiais: suas filhas. “Faço as minhas coisas, tento ser o mais independente possível. O que não consigo, elas fazem para mim”, relata. Não quer voltar a dividir espaço com quem quer que seja, mas deseja a companhia próxima dos seus “anjos da guarda”, só para o caso de haver qualquer emergência. 

O ideal mesmo seria que reconstruíssem seu recanto de lembranças. Mas o coordenador da Defesa Civil de Minas Gerais, coronel Helberth Figueiró de Lourdes, já afirmou que o distrito deve acabar. Se nasceu da mineração do ouro, vai morrer com a do minério de ferro. “Mesmo se houver condições de os moradores voltarem, vou sugerir que isso não aconteça”, disse o coronel. Dona Rosa concorda, mas suspira, pensando no futuro: “A gente quer a vila unida, e não todo mundo isolado”.

Na sua casinha no Bento, repousava na sala de estar, na parede em cima do sofá, um retrato emoldurado da mãe, Maria Crescência Eulália, que morreu há mais de 30 anos. “Fico pensando que não poderia deixar isso lá, apodrecendo. Mas o que eu vou fazer?”, resigna-se.

Os olhos azuis na pele enrugada sorriem ao pensar no dia em que poderá retomar a convivência com sua família - são três filhas, 15 netos e 15 bisnetos - e seus amigos do vilarejo. “A nossa hora vai chegar. Se Deus quiser, a gente vai sair logo daqui. O passarinho, quando está na gaiola e alguém abre, sai voando todo alegrinho, não sai?”.

 

Zezinho, o violão e a árvore

 

Se tem uma coisa que o presidente da Associação de Moradores de Bento Rodrigues gostaria de rever, entre tanta lembrança enlameada, é a castanheira que plantou na praça do distrito, 15 anos atrás. Ao ouvir um barulho suspeito e sair à frente de casa para verificar o que era, um vizinho já disparava de caminhonete, em cuja carroceria Zezinho se empoleirou. Enquanto trilhavam rápido pelas ruazinhas da vila - o motorista testemunhando pelo retrovisor aquela onda marrom -, os olhos do aposentado pousaram na árvore, que mesmo em meio à lama, permanecia de pé.

Naquele segundo, José do Nascimento de Jesus soube que Bento Rodrigues estava fadada a desaparecer em meio à lama, mas viu na sua árvore um símbolo de resistência. “Ela estava ali, toda suja, mas inteirinha. E parecia que olhava para mim”, relembra. A castanheira já havia dado sinais de força nos primeiros meses após o plantio: foi a única, das cinco mudas, que vingou.

Zezinho não tem data para sair do hotel - seu endereço, junto à esposa, é o quarto número 10 (antes era o 8, que se revelou muito pequeno). Como presidente da Associação, só aceita mudar-se para uma casa quando todos os demais habitantes de Bento estiverem bem acomodados. A imagem da destruição não se esvai. “Dá uma revolta muito grande na mente da gente. É uma sensação que não vai sumir nunca”.

No Bento, todo mundo era pai e era filho. Zezinho não saía sem um pacote de balas nos bolsos, porque era certo que encontraria as crianças se divertindo pelas ruas. Por mais que Mariana também seja acolhedora, julga ele, nunca vai ser a mesma coisa. “Pode até ser melhor, mas a gente queria é igual, com pé de goiaba, de mexirica, de manga, de jabuticaba, que dava demais por lá”.

Ele e a esposa Maria Irene poderiam não sorrir. Não bastasse a lama que sepultou sua casa e sua lojinha de artesanato, o genro “morreu de veneno”, um dia depois do rompimento da barragem, depois de anos acumulando os danos dos tóxicos utilizados nas plantações. Uma dor se somou à outra e a força para seguir adiante teve de vir de algum lugar. O violão da família ficou afundado na espessa camada de lama que assolou o distrito, mas o filho, que mora em São João del Rey, ao saber da situação do pai, lhe presenteou com um outro. A cantoria já virou tradição para os hóspedes do hotel, a cada fim de noite. E desanuvia as preocupações. “Isso ocupa a cabeça da gente. Eu chorava muito. Queria que Deus salvasse a minha casa, mas Zezinho já me explicou que não tem como. As coisas que a gente perdeu, a gente adquire de novo. E a vida continua”, desabafa Irene.

Nas novas cordas é que Zezinho sonoriza uma canção que compôs mais de 20 anos atrás, um hit da rádio Itatiaia, mas que mais parece uma profecia: “Ó Deus, eu estou aqui/Vim para pedir para nos ajudar/Ó Deus, os rios estão secando/O mundo está chorando/E a sede vai chegar/A corrida atrás do ouro cada vez aumenta mais”.

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