A ginga e as histórias de quem tem décadas de samba no pé

Integrantes da Velha-Guarda lembram tempo em que carnaval paulistano era quase ?marginal?

Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

21 Fevereiro 2009 | 00h00

Odete da Costa Mercedes, de 84 anos, é de um tempo em que o carnaval era bem diferente. Os cordões percorriam as ruas cantando marchinhas, jogando serpentinas e fazendo batalha de confetes nos passantes. O cordão, que à época se chamava "Vae Vae", saía da Rua Almirante Marques Leão e circulava pelas principais ruas do Bexiga: 13 de Maio, São Vicente e Rui Barbosa. Dona Odete integra a Velha-Guarda da Vai-Vai, da qual fazem parte 82 componentes que têm, no mínimo, 40 anos de dedicação à escola. Ela é a integrante mais antiga: dos 79 anos da agremiação, participou de todos os desfiles em 72 anos, mesmo grávida ou doente. E sempre como destaque, à frente das alas. Sua filha caçula, de 57 anos, já desfila na Velha-Guarda. E seu tataraneto de 7 anos vai estrear nesta madrugada, na Ala das Crianças. Toda semana ela frequenta os dois ensaios, onde é carinhosamente chamada de "vó". No carnaval do seu tempo, os pais proibiam os filhos de pular o carnaval nas ruas. "Para despistar, eu colocava um travesseiro na cama, cobria com lençol e pulava a janela para ir aos ensaios", diz. Aos 12 anos, ela se casou com Genésio, o primeiro baliza da Vai-Vai e "o melhor da cidade". Como as saias eram rodadas, dona Odete escondia os filhos embaixo da roupa quando o juizado de menores aparecia, uma vez que as crianças eram proibidas de desfilar nos cordões. Os componentes do cordão eram todos vizinhos, moradores do Bexiga. Como não existia samba-enredo, os temas eram compostos nos botequins do bairro. "Abre alas, pessoal/Que nós queremos passar/O cordão do Vai-Vai/ Quer brincar o carnaval", cantarola dona Odete. Durante o ano, os foliões percorriam o bairro arrecadando dinheiro com chapéus e sacolas para comprar tecidos para as fantasias e instrumentos para a bateria. O presidente anotava as doações no chamado livro de ouro. Em troca da contribuição, o cordão se comprometia a passar pelas casas e estabelecimentos nos dias de carnaval. A forte colônia italiana presente no bairro, dona de padarias e cantinas, cooperava. "Mas os italianos não desfilavam porque o presidente não deixava. Apenas os negros participavam. Alguns brancos colocavam maquiagem e o presidente tirava do cordão. Hoje todo mundo desfila junto", conta. Quem também saía no cordão da Vai-Vai é Diamantino José Pinto Barbosa, o seu Nenê, de 83 anos, que tocava caixa ou tarol. "No começo, saíamos apenas nas ruas do bairro. Depois, começamos a desfilar no Vale do Anhangabaú e em outros bairros, como a Penha e a Lapa", diz. Ele lembra que o cordão visitava os salões de baile, onde eram recebidos com uma valsa. "Alguns integrantes da bateria acabavam ficando nas gafieiras. No fim da noite, a bateria ficava quase vazia", brinca. Muitos cordões daquele tempo não existem mais, como o Fio de Ouro e o Campos Elísios. Restaram apenas Vai-Vai e Camisa Verde e Branco, que se transformaram em escolas de samba. Ambos eram os maiores rivais na competição pelo título de melhor cordão paulistano. "A rivalidade era tanta que quem desfilava pela Camisa não podia namorar alguém da Vai-Vai", conta Mário Ezequiel, o Tio Mário, de 81 anos, mais de 50 anos deles dedicados à Camisa. CAMISA No cordão da Barra Funda, na zona oeste, os componentes se encontravam no porão da casa do presidente, na Rua Conselheiro Brotero, e de lá percorriam as ruas do bairro. Assim como na Vai-Vai, o objetivo era arrecadar recursos para os dias de carnaval ao som de músicas como "Samba no nosso cordão/Não podemos deixar/A nossa escola na mão/Camisa Verde é a glória / É a nossa tradição". "A Barra Funda era um celeiro de bambas", lembra Nelson Primo, de 69 anos, que ajudou mais tarde a fundar a escola. "As pessoas saíam nas ruas e nas janelas para aplaudir." Ele começou tocando caixa na bateria da Camisa aos 12 anos e foi o primeiro tocador de prato no carnaval paulistano. No Camisa, há duas Velhas-Guardas: a de avenida e a musical, formada há dez anos, que se apresenta em shows por todo o País. Para integrar o grupo, é preciso ter 25 anos de escola. O preconceito com o samba, no entanto, era bem mais forte naquela época. "As mães não deixavam as filhas namorarem participantes das escolas, que eram considerados malandros", conta Nelson Primo, que ajudou a fundar a escola. Seu Nenê, da Vai-Vai, concorda. "A polícia não gostava dos foliões, achava que éramos vagabundos e às vezes chegava a bater." A nostalgia toma conta dos integrantes da Velha-Guarda ao se lembrarem dos antigos carnavais. "Sinto saudades. Eram quatro dias de folia pelas ruas. Na Quarta-Feira de Cinzas, os pés estavam machucados de tanto sambar e a gente até desmaiava de cansaço. Hoje, trabalhamos o ano todo para desfilar apenas uma hora no sambódromo", compara dona Odete. Primo, da Camisa, acredita que é preciso acompanhar as mudanças, mas acha que "o sambista perdeu espaço". "Todo mundo sai como soldadinho. Se parar para sambar, a escola pode perder o desfile." NENÊ A Nenê de Vila Matilde nunca foi um cordão, já nasceu escola de samba. Da reunião de amigos que tocavam cavaco, violão, cuíca e pandeiro no Largo do Peixe foi formada a escola em 1949. No início, o desfile percorria as ruas da Vila Matilde e da Vila Esperança, na zona leste. A Nenê foi a escola que introduziu o samba-enredo e o primeiro carro alegórico no carnaval paulistano. "Anteriormente, as escolas cantavam músicas de carnaval que tocavam nas rádios", diz seu Nenê, de 87 anos. Por conta da novidade, a escola conquistou seu primeiro campeonato, em 1956, com o samba-enredo Casa Grande e Senzala. "Na Casa Grande tudo é alegria/na Casa Grande tudo é festança/na senzala, nego chora/chora que nem criança", canta seu Nenê, enquanto parece tocar um pandeiro no braço do sofá. Ele é capaz de cantar o samba-enredo de todas as vezes em que a escola foi campeã. "Ficamos 15 anos sem ganhar o campeonato, mas nunca saímos do Grupo Especial", diz, rodeado por mais de 70 troféus, na sala de casa. Seu irmão, Benedito Albertino da Silva, o Didi, de 85 anos, também foi um dos fundadores da Nenê. Por mais de 30 anos, ele atuou como baliza, abrindo a passagem pelas ruas, enquanto fazia malabarismos com um bastão e sambava. "Meu bastão era um cabo de vassoura enfeitado com tecidos e lantejoulas", conta. "Eu virava o bastão entre os dedos, fazia piruetas, soltava fogo pela boca. Eu e o Genésio da Vai-Vai éramos considerados os melhores balizas de São Paulo", diz. Hoje, a figura do baliza não existe mais. Foi substituída por mestre-sala e porta-bandeira. A vitalidade de Didi é incrível: enquanto fala, mostra o remelexo de passista que vai desfilar por uma hora no Anhembi. Seu Nenê vai em um carro alegórico. Nesses 60 anos da escola, ele deixou de desfilar apenas no ano passado, quando esteve doente. Agora, conta os dias para a chegada do dia do desfile, cujo samba-enredo vai homenageá-lo. "O samba é a minha vida. Não sei o que eu seria sem a Nenê."

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