Sérgio Figueirêdo/AE
Sérgio Figueirêdo/AE

A glória do ministro das cidades

Pequeno município da Bahia, reduto eleitoral dos Negromonte, recebeu R$ 3 mi em 35 dias

Angela Lacerda, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2011 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL A GLÓRIA (BA)

Localizada a 446 quilômetros de Salvador, no sertão baiano, Glória é uma cidade pequena, com 15 mil habitantes distribuídos na zona rural e comércio acanhado. Poucos veículos circulam na cidade. Não há semáforo. Mas o município, base eleitoral do ministro das Cidades, Mário Negromonte (PP), e administrado pela mulher dele, Ena Wilma, é um ímã de verbas federais.

A pacata Glória recebeu R$ 992.254 do Ministério das Cidades (Programa de Segurança e Educação no Trânsito) para a construção de uma ciclovia e pista de cooper de três quilômetros de extensão. O município terá um Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), no valor de R$ 205.965 - outro incentivo da pasta das Cidades.

A empresa Evereste Consultoria e Marketing Ltda., vencedora da licitação para elaborar o PDDU, pertence a dois aliados dos Negromonte: Antonio Almeida Júnior e Claudio Ademar da Silva. Claudio da Silva foi diretor de Meio Ambiente da prefeitura até o ano passado e Antonio Almeida é diretor da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário (EBDA), cargo para o qual foi indicado pelo ministro e seu filho, o deputado estadual Mário Negromonte Júnior. A oposição levanta dúvidas sobre a empresa. "É de fachada", diz o deputado estadual Paulo Rangel (PT-BA).

Glória estampa, logo na entrada, placas de convênios federais. Do Ministério dos Esportes tem R$ 1.529.574,36 para a edificação da Praça da Juventude e do Ministério do Turismo R$ 989.637,14 para a revitalização do Balneário Canto das Águas.

O total dos recursos destinados ao município - para obras e equipamentos - ultrapassa R$ 4 milhões. Em 35 dias (de 2 de julho a 5 de agosto), R$ 3,025 milhões foram pagos, incluindo R$ 200 mil do Ministério do Desenvolvimento Agrário para a implantação de uma unidade de beneficiamento de frutas. O mesmo ministério destinou mais R$ 150 mil para a aquisição de um caminhão baú refrigerado para transporte de produtos da agricultura familiar. Do Ministério da Integração Nacional o município recebeu R$ 225 mil para a compra de um caminhão pipa.

Somente duas obras tiveram liberação parcial dos recursos: a Praça da Juventude - que recebeu R$ 300 mil, ou 19,23% do custo total - e o PDDU, que teve a liberação de R$ 160 mil, o equivalente a 80% do total do custo. Para os demais projetos, a liberação foi total.

Marido. "Tenho certeza que todas as prefeitas deste País gostariam de ter um marido ministro", afirma Nivaldo Lopes, secretário de Governo da prefeita Ena Wilma. "Isso não quer dizer que todo recurso que chega a Glória seja suspeito", retruca.

Lopes destaca a eficiência da prefeitura, que "apresentou projetos que atendiam a todos os critérios estabelecidos por lei" e passaram por "análise técnica rigorosa". Lembra que os projetos vêm sendo trabalhados desde 2009 em vários ministérios, e que a força de Negromonte, que é deputado federal, é anterior ao seu cargo de ministro. "Aqui é base eleitoral dele, é para cá que ele tem que trazer benefício, se não trouxesse seria criticado."

A prefeita estava fora da cidade durante a visita da reportagem, na sexta-feira. "Ela está em trânsito", informou o secretário.

Críticas. A oposição vê desperdício de dinheiro público em alguns projetos, como o da ciclovia. "É brincadeira, uma imoralidade. O número de carros da cidade é pequeno, nunca se ouviu falar de acidente de trânsito, há poucas bicicletas e a maioria delas é usada pelos agricultores na zona rural", critica o deputado Rangel. "É obra de metrô?", indaga Ricardo Vieira, dono da churrascaria Boi e Bode na Brasa, que fica perto da futura ciclovia.

"O volume de recursos não condiz (com a realidade da cidade)", reforça o vereador de Gloria, Alex Almeida (PTN), um dos poucos opositores da prefeita na Câmara. Segundo ele, depois de assinado pela prefeitura, cópias dos convênios deveriam ser enviadas para a Câmara em 30 dias. O que não ocorreu.

Para a oposição, a forma dos Negromonte fazer política é a troca de benesses. Negromonte Júnior, segundo deputado estadual mais votado na Bahia, era desconhecido até ser nomeado, em 2009, para o cargo de assessor especial (DAS C-2) da secretaria estadual de Infraestrutura.

Com a promessa de ter sua identidade protegida, um morador da zona rural contou ter recebido R$ 200 do grupo de Ena Wilma para votar nela, em 2008. Segundo ele, sua esposa fez o mesmo. "Não foi só a gente não, muita gente recebeu dinheiro", disse ao Estado. Polêmicas à parte, as obras quebraram o marasmo da cidade. "Aqui nunca teve obra, a prefeitura está trabalhando bem pra caramba", disse o servente Messias Siqueira Neto, sergipano, 50 anos. Às 17 horas de sexta, cinco pessoas caminhavam na pista onde será a futura ciclovia.

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