A história de Zezinho, o bóia-fria escritor

Cortador de cana no interior, ele já está no 2º livro

Brás Henrique, RIBEIRÃO PRETO, O Estadao de S.Paulo

16 de novembro de 2007 | 00h00

O bóia-fria piauiense José Pereira da Silva, Zezinho para os amigos, é mirrado e "pequenininho", como diz. Mas tem grandes sonhos na vida. Aos 26 anos, acorda às 4h20, faz comida, põe bota, caneleira, luva, óculos e proteção para os braços e empunha uma afiada foice sob o sol escaldante na lavoura de cana-de-açúcar em Morro Agudo, região de Ribeirão Preto. Apesar do árduo trabalho, encontra disposição para se dedicar à literatura. Com a ajuda de amigos e parentes, publicou o romance O Direito de Amar - Uma História de Amor e Ódio, de 36 páginas (R$ 10), produção independente, mas caprichada. E já projeta outro - A Aventura de um Bóia-fria que Ri Quando Deve Chorar -, sobre o trabalho sacrificado dos colegas nos canaviais. Zezinho acredita ser um artista desconhecido no País. Corta até 12 toneladas de cana por dia, mas é com a caneta que transfere sua imaginação ao papel. Fã de Dráuzio Varella, há três anos escreveu o primeiro livro, cuja protagonista, uma moça pobre, supera o sofrimento e conquista os objetivos - entre eles, construir um abrigo para crianças carentes. Publicá-lo não foi simples. "Era caro. Aí sonhei um ?sonho fantástico? e tudo deu certo."Dos 200 livros impressos, que custaram cerca de R$ 1 mil, alguns já foram vendidos aos colegas de serviço, que aprovaram a ficção do cortador de cana. No final deste mês, com o final da safra de cana, Zezinho seguirá para São Félix do Xingu, município paraense de quase 60 mil habitantes, onde vivem sua mãe e 11 irmãos. As férias serão de dois meses. Apesar de ter nascido em Barra D?Alcântara (PI) - com menos de 3.800 habitantes -, foi na selva amazônica que ele cresceu desde 1 ano. A escrita e a leitura, porém, só conheceu aos 16 anos, quando a família se mudou. Estudou até a sexta série, à noite, enquanto conciliava os serviços de jardineiro, faxineiro, cozinheiro e açougueiro.Há quatro anos cortando cana em Morro Agudo, Zezinho mora com o tio Joaquim Borges Leal, um ano mais novo que ele. E foi no interior paulista que ambos se conheceram: Zezinho esteve poucas vezes no Piauí após a mudança. Leal patrocinou quase toda a produção do livro - três bóias-frias contribuíram com R$ 50 cada. Claudia Regina de Souza fez a ilustração. "Era o sonho dele", diz Leal, que está na lavoura há cinco anos e ganha cerca de R$ 1.300 por mês - o ganho mensal do escritor é de R$ 750. O tio, que não achou caro o patrocínio, está ansioso pelo próximo livro. "Quem sabe não vem um trabalho melhor ainda?", indaga Leal, sempre o primeiro leitor dos textos de Zezinho."O trabalho foi bem feito e ele pode ir em frente, pois é inteligente", diz Francisco Barros de Oliveira, de Várzea Grande (PI), que contribuiu com R$ 50. Já o colega Adeílton dos Santos Sousa, da mesma cidade, leu só metade do livro e tem a mesma opinião. "É bom mesmo, é emocionante. Ele tem talento." Educado e de fala mansa, Zezinho diz que queria fazer um filme, mas o livro foi mais viável. "Os amigos gostaram e os que não sabem ler levam aos parentes, que lêem para eles", revela Zezinho, que já pensa em outro objetivo: ser vereador em São Félix do Xingu. Ele não sabe ainda quando tentará a eleição, pois retornará a Morro Agudo para a próxima safra. Mas nenhum sonho é impossível para um bóia-fria que virou escritor.

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