A história dos símbolos paulistas

Você já se perguntou sobre a origem de nossos símbolos? Foi a partir da Constituição Republicana de 1891 que as províncias foram transformadas em Estados federados e ganharam oficialmente o direito de ter bandeira, escudo e hino, independentemente dos símbolos nacionais. São Paulo, que nas primeiras décadas do século 20 se convertera na vanguarda da economia, cultura e política no Brasil, foi por ironia o último a adotá-los. Apenas durante a Revolução Constitucionalista de 1932, celebrada hoje, oficializou um brasão de armas e passou a desfraldar arduamente uma bandeira proposta pela primeira vez em julho de 1888 pelo escritor mineiro Júlio César Ribeiro Vaughan (1845-1890). Republicano fervoroso, ele publicou um artigo no jornal O Rebate, do qual era fundador, propondo a criação de uma bandeira com 15 faixas horizontais - as burelas - nas cores preta e branca. No canto superior esquerdo, um retângulo vermelho com círculo branco continha um mapa azul do Brasil em azul - com as fronteiras da época, ainda sem o Acre - e quatro estrelas amarelas. Escreveu Júlio Ribeiro: "Esta bandeira preenche tudo o que se possa desejar, simboliza de modo perfeito a gênese do povo brasileiro, as três raças de que se compõe - branca, preta e vermelha. As quatro estrelas a rodear o globo, em que se vê o perfil geográfico do país, representam o Cruzeiro do Sul, constelação indicadora de nossa latitude austral. Assim, pois, erga-se firme, palpite glorioso o Alvo-Negro Pendão do Cruzeiro!" Júlio ainda chegou a criar um projeto de brasão, com ramos de café, cana-de-açúcar e uva, mas que logo foi esquecido. Em relação à bandeira, seu plano era criar não o símbolo do "Estado bandeirante", mas o novo pavilhão brasileiro. Nos últimos anos do Império, haviam surgido entre os republicanos propostas para mudar o pavilhão nacional. Incluindo a dele. Dias após a Proclamação da República, a bandeira de Júlio Ribeiro chegou a ser hasteada no palácio do governo provincial de São Paulo. Os republicanos no Rio de Janeiro usaram modelo parecido, com as cores verde e amarela, mas acabariam por consagrar em novembro de 1889 o atual modelo da bandeira nacional. Nos anos 10, o modelo paulista tornara-se apenas a "bandeira escolar" do Estado. Em meio ao ardor patriótico e bélico paulista na Revolução de 1932, ela ressurgiu com força. Até que em 1937 a Constituição do regime de Getúlio Vargas proibiu o uso de símbolos municipais e estaduais. Segundo Hilton Federici, "por quase um decênio, tempo de duração do Estado Novo, esses símbolos ficaram sepultados, não na memória e no coração dos paulistas, mas nas sombras das imposições ditatoriais". Com a queda de Vargas e a Constituição democrática de 1946, a bandeira paulista foi restaurada pelo Decreto-lei 16.349 e, posteriormente, com a Lei 145, de 3 de setembro de 1948, ganhou na disposição legal um cunho nacionalista: "A bandeira de São Paulo significa que noite e dia (campo burelado de preto e branco) nosso povo está pronto para verter o seu sangue (cantão vermelho) em defesa do Brasil (círculo branco e silhueta geográfica) nos quatro pontos cardeais (estrelas de ouro)." Com o tempo, o pavilhão passou a contar com 13 listras, em vez das 15 originais. O motivo é controverso. Uma hipótese é que as 13 burelas se ajustavam melhor às proporções da bandeira; outra é que se procurou adequá-la ao modelo da bandeira americana, que tem o mesmo número de faixas. Mesmo nos cartazes da Revolução de 32, a bandeira às vezes figurava com 13, às vezes com 15 listras. E, em 1934, a primeira estrofe do poema Nossa Bandeira, de Guilherme de Almeida, consagraria seu atual número: "Bandeira de minha terra,/ Bandeira das 13 listras:/ São 13 lanças de guerra/ Cercando o chão dos Paulistas!" BRASÃO DE ARMAS São Paulo também foi o último Estado a adotar brasão de armas na época. Até 1932, além do brasão da República, era famoso entre os paulistas o brasão da cidade de São Paulo, que trazia um braço armado de prata empunhando a bandeira farpada com a cruz da Ordem de Cristo sobre um campo vermelho. Projeto de Guilherme de Almeida com desenho de José Wasth Rodrigues (1891-1957), foi adotado pela Câmara Municipal em 1917 e ganhou tanta influência que d. Francisco de Aquino Corrêa, governador de Mato Grosso, adotou o braço armado como símbolo bandeirante no brasão do Estado em 1918. Durante a Revolução Constitucionalista, com a Campanha do Ouro para o Bem de São Paulo, um primeiro emblema serviu de base à criação do brasão do Estado. Cunhado em medalhas, diplomas, anéis, trazia "uma espada em posição vertical ornada de ramos de louro e de carvalho que se cruzavam". Tinha ainda um listel circular, com a legenda em latim PRO SÃO PAULO FIANT EXIMIA (Por São Paulo façam-se grandes coisas), proposta por José Maria Whitaker e Gastão Liberal Pinto. Notando a falta de um brasão, uma comissão foi encarregada de criar o emblema heráldico, elaborado pelo pintor e desenhista José Wasth Rodrigues com ajuda de Francisco Pati e Clóvis Ribeiro. O projeto foi levado ao então governador Pedro Manuel de Toledo, que o aceitou com uma ressalva: a de que fosse mudada a legenda para PRO BRASILIA FIANT EXIMIA (Pelo Brasil façam-se grandes coisas). O decreto 5.565, de 29 de agosto de 1932, dizia num trecho: "O Estado de São Paulo, ao contrário dos demais Estados da Federação, não possui, ainda, brasão de armas. Vai possuí-lo agora, em hora oportuna como poucas. Como tudo o que é seu, como tudo o que se acha incorporado ao seu patrimônio moral e material, este brasão de armas será, também, uma conquista do seu povo. Em vez de consagrar unicamente glórias antigas, consagrará, também, glórias presentes. Os símbolos que no mesmo figuram viverão pelo que dizem do passado e pelo que confirmam no presente." Graficamente, o brasão é composto por um escudo vermelho português, sobre o qual se assenta uma espada romana, representando o apóstolo Paulo - soldado romano que se converteu ao cristianismo e deu nome a nosso Estado. Simboliza ainda a figura de Amador Bueno da Ribeira, que em 1641 mostrou fidelidade ao rei de Portugal, d. João IV, frente à primeira onda de separatismo na colônia e o próprio bandeirantismo, bem como o Grito do Ipiranga, com d. Pedro I puxando sua espada. Finalmente, relembra o próprio Movimento de 1932 em sua luta pela igualdade, pois a espada é também símbolo da Justiça. Sobre o punho da espada, aparecem dois ramos entrecruzados - um de louro, símbolo da vitória, à destra, e outro de carvalho, à sinistra, cujo significado remete à força. Evocam no brasão "as tradições de bravura cívica e militar do povo paulista". No terço superior do escudo, aparecem as letras SP, cuja sigla significa, além do próprio nome do Estado, a evocação de seu valor e suas glórias. A estrela de prata, que na bandeira nacional é chamada de "Alfa", da constelação do Cruzeiro do Sul, representa São Paulo como membro da federação. Ornam o escudo dois ramos de café entrecruzados e frutificados - a principal riqueza agrícola paulista na época. E, do mesmo modo que a bandeira, abolida pela Constituição de 1937, o brasão foi retomado e oficializado em 1948, durante o governo de Adhemar de Barros. Não é raro que símbolos se descaracterizem ao longo do tempo, seja por divergências na interpretação da lei, versões artísticas ou mesmo erros de reprodução. Em muitos Estados, encontramos ainda hoje brasões fora do modelo original. No caso de São Paulo, há pequena falha a ser comentada. Segundo a Lei 145, de 1948, ele deveria conter "um ramo de louro à destra e de carvalho à sinistra". Mas o que se vê em muitos casos é a repetição dos ramos de louro dos dois lados da espada. Outro detalhe são os frutos de café. Embora não haja determinação legal sobre sua cor, eles aparecem em amarelo ou marrom, em vez do vermelho, conforme uma versão original do desenho. HINO Embora na época da Revolução da 32 tenham sido criadas canções e marchas em homenagem a São Paulo e, mesmo depois, a Constituição de 1946 tenha retomado o uso de símbolos estaduais, só em 1967 a Lei 9.854 assinalou a necessidade de instituir um hino. As origens do Hino dos Bandeirantes remontam àquele mesmo ano, quando foi composto pelo advogado, jornalista, poeta e tradutor Guilherme de Andrade e Almeida (1890-1969) em 18 de setembro de 1967, sob o título original de Aquarela Bandeirante. Natural de Campinas, o "príncipe dos poetas brasileiros" entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1930 e foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna (1922). Também participou ativamente da Revolução de 1932, sobre a qual produziu várias obras. Ainda se destacou na confecção do brasão da cidade de São Paulo (1917) e da bandeira e brasão de Brasília (1960). Em 10 de julho de 1974, estabeleceu-se definitivamente o Hino dos Bandeirantes como o canto do povo paulista por meio da Lei 337 e os direitos autorais foram cedidos pela viúva do poeta, Beikiss Barrozo de Almeida. Mas ainda faltava a música, que seria adotada em 1975, escolhida por concurso público vencido pelo maestro paulistano Spartaco Rossi (1910-1993). Após estudar na Escola Americana e no Conservatório Dramático e Musical, ele atuou em rádios e ajudou a fundar a Orquestra Municipal de São Paulo. Em 1944, também fez com Guilherme de Almeida a Canção do Expedicionário, em homenagem aos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial. *Professor, geógrafo e autor do livro Hinos de Todos os Países do Mundo (Panda Books, 2008). E-mail: tiago_berg@yahoo.com.br BIBLIOGRAFIA FEDERICI, Hilton. ?Símbolos Paulistas: Estudo histórico-heráldico?. São Paulo: Secretaria de Cultura, Comissão de Geografia e História, 1981. FREITAS, A. A. ?Bandeira Paulista. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo?. São Paulo, 51: 211-214, 1953. LUZ, Milton. ?A história dos símbolos nacionais: a bandeira, o brasão, o selo, o hino?. Brasília: Senado Federal, 1999. RIBEIRO, Clóvis. ?Brazões e bandeiras do Brasil?. São Paulo: Editora São Paulo Ltda., 1933. Sites http://flagspot.net/flags/ e http://pt.wikipedia.org/ HINO DOS BANDEIRANTES Paulista, para um só instante Dos teus quatro séculos ante A tua terra sem fronteiras, O teu São Paulo das "bandeiras"! Deixa atrás o presente: Olha o passado à frente! Vem com Martim Afonso a São Vicente! Galga a Serra do Mar! Além, lá no alto, Bartira sonha sossegadamente Na sua rede virgem do Planalto. Espreita-a entre a folhagem de esmeralda; Beija-lhe a Cruz de Estrelas da grinalda! Agora, escuta! Aí vem, moendo o cascalho, Botas-de-nove-léguas, João Ramalho. Serra acima, dos baixos da restinga, Vem subindo a roupeta De Nóbrega e de Anchieta. Contempla os campos de Piratininga! Este é o Colégio. Adiante está o sertão. Vai! Segue a entrada! Enfrenta! Avança! Investe! Norte - Sul - Este - Oeste, Em "bandeira" ou "monção", Doma os índios bravios. Rompe a selva, abre minas, vara rios; No leito da jazida Acorda a pedraria adormecida; Retorce os braços rijos E tira o ouro dos seus esconderijos! Bateia, escorre a ganga, Lavra, planta, povoa. Depois volta à garoa! E adivinha através dessa cortina, Na tardinha enfeitada de miçanga, A sagrada Colina Ao Grito do Ipiranga! Entreabre agora os véus! Do cafezal, Senhor dos Horizontes, Verás fluir por plainos, vales, montes, Usinas, gares, silos, cais, arranha-céus!

Tiago José Berg *, O Estadao de S.Paulo

09 Julho 2009 | 00h00

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