A hora em que o bom é fazer o oponente ir mal

No primeiro e histórico debate presidencial pela TV, em 1960, o americano John Kennedy abriu caminho para a Casa Branca ao vencer Richard Nixon - por ser mais simpático, mais seguro, mais fino. Nos 50 anos passados desde então, a receita não mudou. Mais do que falar com seus rivais na sala, o candidato precisa mesmo é seduzir o eleitorado que o está vendo. O importante é sair do programa com mais votos do que entrou.

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2010 | 00h00

Desde que Franco Montoro e Reynaldo de Barros se enfrentaram na TVS (hoje SBT) em 1982, no primeiro debate político na TV brasileira, os caminhos dessa sedução foram muitos e variados. É bom sair-se bem, mas induzir o adversário a sair-se mal é ótimo.

Que o diga o hoje ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, primeira vítima desse jogo, que naufragou quando Bóris Casoy lhe perguntou em 1985, diante de um Jânio Quadros silente, se acreditava em Deus. FHC hesitou, gaguejou e perdeu votos por admitir, no susto, que era ateu.

Muitas histórias ficaram, também, do primeiro debate presidencial do País, que a Band organizou em 1989. A começar pela mesa interminável, de nove competidores. "Parecia uma assembleia", recorda-se Fernando Mitre, diretor de Jornalismo da emissora, que desde então organizou cerca de 40 outros debates.

Naquela noite, Leonel Brizola (PDT) e Ronaldo Caiado (PSD) quase se pegaram, quando este acusou o rival de ter muito gado no Uruguai. "É preciso dar nome aos bois!", bradava Caiado, da bancada ruralista. E Brizola ciscava: "Ih, o homem caiu do cavalo!" Em outro momento, Marília Gabriela deu a vez a Aureliano Chaves (PDS), que dormitava e reagiu assustado: "É pra responder ou pra perguntar?" O fato marcante de 1989, no entanto, foi o jogo pesado de Collor contra Lula, no segundo turno: ele divulgou dias antes que o petista tinha uma filha fora do casamento e que pressionou a mãe, Miriam Cordeiro, para que abortasse. Depois, no debate da TV Globo, jurou que Lula iria confiscar a poupança de todos. Coisa que ele próprio acabou fazendo.

Mas sedução não é um jogo simples e o vencedor nem sempre é quem venceu, como se viu em 1998. Em São Paulo, Mário Covas nocauteou Paulo Maluf em 1998, em debate da Band, e virou o jogo, ganhando a eleição. Mas em Brasília aconteceu o contrário: Cristovam Buarque triturou Joaquim Roriz, mas o eleitorado tomou-se de zelos pelo derrotado e o levou ao poder.

Geraldo Alckmin também atacou Lula no segundo turno, em 2006, mas avançou o sinal... e teve menos votos que no primeiro. Ou seja, nesse incerto campeonato de simpatia, às vezes o eleitor prefere, simplesmente, alguém que não invente nem complique.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.