A implacável e o obsessivo

Candidatos são conhecidos pelo modo como cobram assessores e colegas; eles são exigentes, mas não autoritários, dizem aliados

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

Seja qual for o resultado de hoje, o Brasil não terá como presidente uma pessoa fácil de lidar. Frustrada nas suas expectativas, Dilma Rousseff é rude; José Serra fica emburrado. Ao cobrar resultados, Serra tende a ser obsessivo; Dilma, implacável.

A ex-ministra da Casa Civil é conhecida por elevar o tom da voz, falar de maneira ríspida e assumir uma atitude interpretada por muitos como de superioridade. E faz isso publicamente. Na frente dos jornalistas, ela se mostra impaciente quando os assessores não providenciam o que ela pediu: "Meu filho (ou minha filha), não é essa pasta que estou falando."

No primeiro ano de governo, em setembro de 2003, a então ministra de Minas e Energia protagonizou um episódio que causou perplexidade. Diante de todos os diretores do Sistema Eletrobrás, Dilma descartou sem ler um relatório que havia sido preparado pelo engenheiro Luiz Pinguelli Rosa, então presidente da estatal. Em seguida, passou a criticar duramente os diretores financeiros das empresas do sistema.

Alexandre Magalhães da Silveira, então diretor financeiro da Eletrobrás, compreendeu que os ataques de Dilma eram dirigidos a ele, por ter tornado públicas suas divergências com a ministra. Pegou sua pasta, levantou e saiu. Silveira só pediu demissão em janeiro do ano seguinte, e afirmou que o motivo não foi a descompostura da então ministra, mas sua discordância do que considerava o uso político dos recursos da Eletrobrás.

Já o ex-secretário executivo do Ministério da Integração Luiz Antonio Eira deixou o cargo por causa da forma como foi tratado pela então chefe da Casa Civil, numa reunião da qual participavam cerca de 50 pessoas, em junho do ano passado. Eira explicava que, com o atraso da construção da Ferrovia Transnordestina, seria preciso aprovar mudança no cronograma de liberação dos fundos.

Dilma interrompeu, em voz alta: "Se o Ministério da Integração acha que vai dispor desses recursos, nem por cima do meu cadáver". Eira pediu demissão ao então ministro Geddel Vieira Lima e voltou ao cargo de assessor na Câmara dos Deputados, onde é funcionário de carreira.

Essas reações de Dilma são vistas com benevolência pelos assessores e aliados políticos. "É o rigor dela com as coisas", atenua Geddel. "Ela é competente e cobra competência do interlocutor", justifica o ministro das Cidades, Márcio Fortes, diversas vezes tratado com aspereza em público. "Não considero que haja um estilo rude. Ela gosta do debate. Não impõe suas ideias", defende Fortes.

Maurício Tolmasquim, que foi secretário executivo de Dilma no Ministério das Minas e Energia e hoje dirige a estatal Empresa de Pesquisa Energética, garante que "nunca se sentiu agredido" pela ex-ministra. "Às vezes, a gente apresentava uma proposta e ela mandava refazer três vezes. Prefiro refazer do que depois não ficar adequado. Não me incomoda", diz Tomalsquim.

Pelo braço. Ao contrário de Dilma, Serra não costuma alterar a voz. Mas há relatos equivalentes de pessoas que não toleraram seu estilo. O médico sanitarista Helvécio Bueno, ex-funcionário do Ministério da Saúde, lembra que na primeira vez em que viu Serra, recém-empossado ministro, em 1998, ele entrou no meio de uma reunião de diretores e, sem pedir licença nem cumprimentar ninguém, pegou pelo braço o chefe de gabinete, que conduzia a reunião, e saiu da sala, deixando os presentes sem lhes dirigir a palavra.

Mas Bueno afirma que deixou um ano depois o ministério, onde trabalhava desde 1985, quando apresentou a Serra dados sobre o aumento da mortalidade infantil no Nordeste e o ministro lhe teria dito que "a informação não podia sair do ministério".

A intolerância e mau humor de Serra também são justificados pelas pessoas que o cercam como uma rejeição à incompetência e ao despreparo de quem não fez a tarefa de casa. "Ele é muito exigente, faz questão de que tudo fique bem esclarecido", explica o governador Alberto Goldman, vice de Serra até o início do ano. "A cobrança não é dura, é eficiente", garante o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), vice de Serra entre 2005 e 2006. "Tem algumas lendas em relação ao Serra. Ele não centraliza. Ao contrário, delega muito. Mas cobra com muito rigor."

Andrea Matarazzo, amigo e ex-secretário de Coordenação das Subprefeituras de Serra na Prefeitura de São Paulo, também considera o mau humor dele um mito. Matarazzo assegura que, independentemente das variações de humor, Serra "mantém a objetividade".

As pessoas que trabalham com Serra garantem que nem mesmo o seu horário exótico de trabalho atrapalha na gestão. Serra vai dormir de madrugada. Gosta de iniciar reuniões às 17 horas e atinge o pico da atividade intelectual às 23 horas. Segundo Goldman e o secretário da Educação, Paulo Renato de Souza, o e-mail resolve o problema. Ambos vão dormir por volta de 23 horas e acordam cedo. Habituaram-se a enviar e-mails de noite a Serra, e invariavelmente a encontrar a resposta - às vezes, enviada de madrugada - no dia seguinte.

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