A jornada das mulheres espancadas na Europa

O mundo observa uma jornada contra as brutalidades conjugais. O flagelo é universal. Ele pode ser agravado pela miséria, pelo caos político (no Congo devastado por guerras), pelas tradições (o machismo, os tabus, a "honra familiar" que levam um pai ou irmão a matar a moça que "agiu mal" ou que simplesmente foi violentada). Mas não há povo, não há classe social, que seja poupado. Na França, as estatísticas são claras: os senhores elegantes e engravatados, os bem educados, os bem pensantes, são tão perversos quanto os imigrantes ou os pobres. Em 2008, a cada dois dias e meio, uma mulher foi morta por seu parceiro.

Gilles Lapouge*,

25 Novembro 2009 | 17h34

 

Às vezes a morte é evitada, mas os ferimentos são abomináveis. Na semana passada, uma mulher de 29 anos teve 70% de seu corpo queimado pelo antigo companheiro. A verdade é, de resto, bem pior: por medo de novas surras, por vergonha, as mulheres sobreviventes raramente denunciam essas infâmias. Somente 13% delas são conhecidas. Poucos países encontraram uma solução para esse desafio. A Espanha é citada como modelo. As ferramentas que o primeiro-ministro Zapatero forjou contra os homens "de cabeça pequena e bíceps grandes" são bastante eficazes. Paris vai copiá-las.

 

A Justiça espanhola recebeu grandes poderes. Ela pode afastar o consorte brutal mais de 150 quilômetros de seu domicílio, e também impor aos homens violentos um bracelete eletrônico. Além disso, a mulher pode se colocar sob a proteção da polícia. Como se passam as coisas? Uma mulher é surrada pelo marido. Após 10 anos, 15 anos, ela não suporta mais. Dá queixa. O juiz afasta o marido do domicílio. Mas a mulher continua assustada e angustiada. Ela recebe então um controle eletrônico. Seu marido deve 24 horas por dia um bracelete eletrônico. Na delegacia de polícia, uma tela permite acompanhar o percurso do controle da mulher (um ponto luminoso vermelho) e o bracelete eletrônico do marido (um ponto verde). Quando os dois pontos se aproximam a menos de 400 metros, o alerta é imediato. A polícia intervém.

 

Outra hipótese: a mulher percebe que um carro a segue e reconhece o marido. Ela pressiona o botão "emergência" no controle. A polícia a atende, fornece itinerários, a toma sob proteção. Hoje em dia, 13 mil mulheres possuem um controle portátil de urgência com botão de chamada e GPS. Não há panaceia, mas as mulheres espanholas se dizem tranquilizadas. O simples fato de contarem seus dramas, de quebrarem oficialmente o silêncio, as acalma. Os homens, informados sobre esses dispositivos, contêm um pouco seus braços.

 

Apesar de tudo, 76 mulheres espanholas foram mortas por seu companheiro ou marido em 2008. Neste ano, computaram-se 49, mas a polícia espanhola precisa entre essas últimas, nenhuma portava o controle. A França vai adotar um conjunto de medidas inspirado no exemplo espanhol.

 

*Gilles Lapouge é correspondente de O Estado de S. Paulo em Paris

Mais conteúdo sobre:
violência

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.