A mesma fama que orgulha atrapalha o HC

Reflexo de reestruturação só deve ser sentido em 5 anos

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 00h00

O incêndio que atingiu o Hospital das Clínicas na noite de Natal e levou à suspensão temporária de alguns serviços reacendeu uma discussão tão antiga quanto o próprio complexo hospitalar inaugurado na década de 40: afinal, qual o papel do HC na rede pública de saúde? Médicos e especialistas ouvidos pelo Estado são unânimes em dizer que as unidades que compõem o centro médico deveriam se dedicar só a ensino, pesquisa e atendimento de alta complexidade. O que ninguém sabe ao certo é como reverter a cultura dos milhões de pacientes que, na dúvida, não hesitam em bater à porta do maior e mais importante hospital da América Latina.Propostas não faltaram. A última delas, implementada em outubro de 2007, é tida como a mais promissora. O pronto-socorro passou a atender apenas os pacientes indicados por outros hospitais, ambulatórios de especialidades e Assistências Médicas Ambulatoriais (AMA), além daqueles encaminhados pelos serviços de resgate e moradores das regiões oeste, sul, parte da central e Osasco. "As pessoas procuravam o PS para resolver casos simples e ele acabou se transformando numa porta de entrada para os demais serviços do hospital", diz o professor-titular da disciplina de Hematologia e Hemoterapia da Faculdade de Medicina da USP e integrante do Conselho Deliberativo do HC, Dalton Chamone.A prática era nociva não só para o hospital, mas para os pacientes. "Quem realmente precisava das nossas unidades especializadas custava a chegar", comenta Chamone. "Em muitos casos, a doença já havia atingido um estágio avançado, em que o tratamento é mais difícil." Na avaliação dele e de outros médicos, a criação de um sistema integrado de marcação de consultas entre Estado e Prefeitura e as novas regras para o atendimento no PS vão reduzir o inchaço. Embora a média diária de atendimentos na emergência já tenha caído de 900 para 650, os efeitos práticos dessas mudanças só deverão ser sentidos pela rede em cinco anos.Outro gargalo do hospital está no setor de distribuição de medicamentos. Além de fazer o diagnóstico, o HC também se encarrega de oferecer tratamento. "O que era para ser um aspecto positivo se tornou altamente negativo", afirma o especialista em gestão de serviços de saúde e ex-secretário municipal da Saúde, Gonzalo Vecina Neto. "Para não perder essa assistência, os doentes mantêm o vínculo com o centro médico como se estivessem usando um plano de saúde. Isso dificulta a marcação de novas consultas." Para aliviar a pressão sobre as unidades do HC, diz Vecina, as autoridades teriam de pensar numa forma de "devolver" os pacientes para as unidades de origem, transferindo a responsabilidade sobre os tratamentos prolongados.REFERÊNCIAO Hospital das Clínicas ainda paga um alto preço pela fama. Se por um lado isso garante prestígio e financiamentos vultosos para pesquisas de ponta, de outro faz pessoas de todas as partes do País virem a São Paulo se consultar com seus médicos. Levantamento feito pelo Departamento de Hematologia revelou que 38% dos pacientes eram de fora do Estado. O porcentual se mantém em outras unidades e aponta a necessidade de mudanças estruturais também no Sistema Único de Saúde (SUS), vinculado ao governo federal. "A verba teria de vir junto com esses pacientes", defende Chamone. "A União deveria remunerar os Estados de acordo com o volume de atendimentos."Já para o superintendente do HC, José Manoel Teixeira, falta à população maior conhecimento do funcionamento da rede de saúde. "Por muito tempo, existiam só as unidades básicas e hospitais", diz. "Isso mudou, mas as pessoas não se acostumaram." Médicos do HC afirmam que o problema não é só o desconhecimento sobre a estrutura da rede. "Faltam profissionais capazes de fazer uma avaliação primária", diz um médico que pediu anonimato.Uma questão de consenso é a de que o dinheiro não chega a ser problema. O orçamento do complexo foi de R$ 1 bilhão em 2007, 20% do montante da saúde no Estado. COLABOROU EMILIO SANT?ANNA38%é o porcentual de pacientes vindos de outros Estados atendidos pelo Setor de Hematologia650é a média diária de pacientes atendidos pelo pronto-socorro, após as mudanças na redeR$ 1 bifoi o orçamento do HC em 2007. Desse total, R$ 700 milhões vieram do Estado e o restante do SUS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.