Ed Ferreira/AE-13/1/10
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A militares, Dilma indica que Lei da Anistia é intocável mesmo sob Amorim

Aconselhada por Lula, presidente convidou comandantes das três Forças para uma conversa no Alvorada e os tranquilizou sobre a indicação de ex-chanceler para comandar a pasta; ela explicou que não poderia tolerar a insubordinação de Jobim

Tânia Monteiro e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2011 | 00h00

Na tentativa de acalmar os militares, que reagiram mal à escolha do ex-chanceler Celso Amorim para o Ministério da Defesa, a presidente Dilma Rousseff reuniu ontem os comandantes das três Forças Armadas, no Palácio da Alvorada, e disse não haver motivo para preocupações. Dilma pediu aos militares que mantenham a "normalidade institucional", abriu um canal direto de relacionamento com eles e assegurou que seu governo não permitirá revanchismos.

O encontro durou uma hora e ocorreu no dia seguinte ao da demissão de Nelson Jobim, que chefiava o Ministério da Defesa desde 2007, no segundo mandato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A presidente fez questão de reunir a o alto comando da tropa, pouco antes de viajar para a Bahia, com o objetivo de desfazer o mal-estar.

Em mensagem teleguiada para acalmar a caserna, Dilma afirmou que ninguém precisa temer mudanças. Embora não tenha tocado no assunto com todas as letras, os militares entenderam que não haverá revisão da Lei de Anistia. Pactuada para possibilitar a transição democrática, a lei impede a punição de agentes de Estado que praticaram crimes contra os opositores do governo, como tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados, durante a ditadura.

Amorim tomará posse na segunda-feira e hoje vai se reunir com os comandantes militares, em Brasília. Da mesma forma que Dilma, disse aos mais próximos que fará um trabalho de "distensão". Não haverá solenidade de transmissão de cargo.

A saída de Jobim foi oficializada na quinta-feira à noite e Dilma procurou deixar claro, na conversa com os militares, que, assim como eles, a Presidência também não pode admitir insubordinação.

Jobim caiu depois de ter dado uma entrevista à revista Piauí, na qual faz críticas aos auxiliares mais próximos de Dilma e ao próprio governo. À revista, ele definiu a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, como "fraquinha" e disse que a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, "nem sequer conhece Brasília".

Na quinta-feira, durante viagem a Tabatinga (AM), na fronteira com a Colômbia, Jobim afirmou que suas declarações haviam sido tiradas do contexto. Dilma mandou o então ministro retornar e, à noite, ele entregou a carta de demissão.

Telefonema. Depois de conversar por telefone com Lula - que na quinta-feira estava em Bogotá -, a presidente decidiu convocar os militares para uma reunião. Queria tranquilizá-los sobre a nomeação do diplomata Amorim, considerado por eles como "esquerdista".

Participaram do encontro com Dilma ontem no Alvorada os comandantes do Exército, Enzo Peri; da Marinha, Moura Neto; e da Aeronáutica, Juniti Saito, além do chefe do Estado-Maior Conjunto, general José Carlos De Nardi.

O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), José Elito Carvalho Siqueira, não foi chamado para a reunião. Ao tomar posse, em janeiro, Elito disse que a existência de desaparecidos políticos durante a ditadura militar (1964-1985) não deve ser motivo de vergonha nem tampouco de vanglória, mas, sim, tratado como "fato histórico". Ex-militante de organizações de extrema esquerda, Dilma não gostou das declarações e o enquadrou na época.

A presidente contou a auxiliares que saiu "aliviada" do encontro com os militares. Eles gostavam de Jobim, mas disseram entender que o ex-ministro "passou dos limites".

Orai e vigiai. Mais tarde, no Palácio do Planalto, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, também tratou ontem de tranquilizar os servidores sobre a saída de Jobim. Em reunião com cerca de 50 integrantes do governo, entre os quais secretários executivos, Carvalho afirmou que a ordem de Dilma, agora, é para que todos continuem trabalhando. "Está tudo tranquilo", disse.

Ao mencionar a "faxina" nos Transportes, o ministro insistiu em que o governo tem "tolerância zero" para a corrupção. Pediu, ainda, que todos fiquem atentos para evitar que o Palácio do Planalto seja surpreendido por denúncias de irregularidades. "Orai e vigiai", pediu o ministro, ex-seminarista e católico fervoroso.

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