''A mulher não deixa de levar bolo, frango, sexo e filhos para ele''

Para visitar presos, enfrentam longas jornadas, revistas constrangedoras e até a deslealdade de quem amam

Laura Diniz e Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

05 Outubro 2008 | 00h00

No dia 18 de abril de 2005, as mulheres de líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) pararam o trânsito no centro de São Paulo para combater a redução nas visitas íntimas nas penitenciárias de regime fechado, determinada pela Secretaria de Administração Penitenciária. Quase 10 mil pessoas se reuniram para o protesto, cuja articulação teve início seis meses antes e não contou com o apoio de nenhuma instituição. Após quatro horas de protesto, elas foram recebidas pelo então secretário, Nagashi Furukawa, e saíram de lá com uma decisão que não desagradava nem ao governo nem a elas. "Oi, amor, nós vencemos", avisou Juliana ao marido, preso na P-2 de Presidente Venceslau. A notícia se espalhou em segundos entre os 100 mil detentos do Estado, com comemorações na maior parte das penitenciárias. A luta das mulheres para vivenciar o amor com homens presos, como revela o livro Casadas com o Crime, é barulhenta em ocasiões de crise, mas, no geral, é árdua e silenciosa. Todos os domingos, uma legião de mulheres sai de casa com dinheiro contado e pega estrada, às vezes por horas, para chegar até a unidade onde o marido ou o namorado está preso. "A mulher não deixa de levar o bolo, o frango, o sexo e os filhos para o homem. Ela enfrenta madrugadas e uma revista íntima constrangedora para que ele não tenha oportunidade de se esquecer dela ou de trocar o amor dela pelo de outra", diz a advogada criminalista Sônia Drigo, voluntária da Pastoral Carcerária para atender mulheres acusadas e condenadas. A lealdade feminina, no entanto, não encontra eco do lado dos homens. "As filas de visita, do lado de fora das penitenciárias femininas, são muitíssimo menores que as dos homens", afirma Carmen Silvia de Moraes Barros, coordenadora do Núcleo Especializado da Situação Carcerária da Defensoria Pública. As mulheres costumam ser as últimas das células criminosas a serem presas e, quando isso acontece, quase metade delas já tem o marido na cadeia. O abandono da presa é quase regra. A primeira explicação é ligada ao comportamento machista. Na visão das especialistas, a mulher tem utilidade para o homem na medida em que, solta, pode cuidar dos filhos, atendê-lo sexualmente e talvez até ajudar na execução dos crimes que comanda de dentro da cadeia. Diferentemente do que ocorre com os homens, a família, muitas vezes, também as desampara. "Elas são mais estigmatizadas. Parece que, aos olhos das pessoas, as mulheres criminosas são mais culpadas", avalia Carmen Silvia. Um problema prático também atrapalha: as visitas são permitidas pelo governo estadual apenas para parentes em primeiro grau. Ou seja, as amigas, que costumam dar apoio nessas horas, não podem entrar na prisão. O abandono das mulheres fica mais cruel quando se pensa na lealdade que elas dedicam aos homens. Josmar descreve, no livro, a história de uma mulher que passou 18 anos visitando o marido na cadeia e, na primeira oportunidade de fuga, ele arrumou outra e desapareceu. O AUTOR Josmar Jozino, de 50 anos, destacou o sofrimento com a solidão na prisão como um dos maiores dramas da mulher encarcerada. "É muito triste, muitas pensam em se matar. Elas descrevem, nesses casos, uma dor pior que a morte", diz o jornalista. Casadas com o Crime é o segundo livro do repórter policial, com mais de 20 anos na área, que atualmente integra a equipe do Jornal da Tarde. Seu primeiro livro publicado é Cobras e Lagartos, da Editora Objetiva, em que revela como surgiu o PCC. "Eu já havia contado a história dos homens. Então, faltava contar também a das mulheres, que foram, aliás, as principais fontes do Cobras e Lagartos", afirma o autor. A obra estará nas livrarias a partir desta semana, com o preço sugerido pela editora de R$ 42,90.

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