A nova moda da viola: ter diploma

Universidade de São Paulo oferece curso superior em viola caipira

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

02 Outubro 2008 | 00h00

Tião Carreiro, Gedeão da Viola, Renato Andrade e até blues e rock. É raro não ter cantoria na Toca do Saci, república de Ribeirão Preto onde moram sete estudantes da USP. Quatro deles alunos do Bacharelado em Viola Caipira. Entre esses, Ighor Aguila e Thiago Rossi, que se formam no fim do ano e serão os dois primeiros diplomados do curso, criado em 2005. "Cresci ouvindo Almir Sater e Renato Teixeira", lembra Aguila. Ele tem 26 anos e se dedica ao instrumento desde os 18. "Dependendo do estado de espírito, tocamos de Tião Carreiro a rock-and-roll na viola", conta Rossi, de 23 anos, violeiro há 9. Ambos juram pelas cordas de suas violas que não tiveram resistência dos pais quando optaram por um curso tão inusitado. "Apesar de terem um receio quanto ao potencial retorno financeiro dessa minha escolha, eles me apoiaram bastante", diz Aguila, filho de um engenheiro civil e de uma psicóloga. Após formado, ele pretende conciliar sua carreira de compositor com aulas particulares e pesquisas acadêmicas. Músico e pesquisador, Ivan Vilela é o principal responsável pela idéia de levar um instrumento tão popular para os bancos universitários. "Deve ser o único curso superior de viola caipira no mundo", afirma. "A viola tem um contexto social: aproxima pessoas que querem resgatar valores do campo, mesmo vivendo na cidade." Mas Vilela não estava completamente satisfeito. Queria que as aulas fossem oferecidas na capital. "São Paulo foi o grande palco da migração. Tornou-se repositório da cultura caipira." Ele crê que na capital é maior o interesse pelo instrumento. Uma prova? "Há mais de 15 orquestras de viola caipira na região metropolitana", estima. "Nos últimos 12 anos, foram lançados mais de 40 discos de viola instrumental no País." É a verdadeira moda da viola. No concurso vestibular para 2009, as duas vagas anuais de viola caipira já aparecem como sendo oferecidas pelo Departamento de Música da Escola de Comunicação e Artes, da Cidade Universitária, em São Paulo. CAPITAL CAIPIRA O maestro Rui Torneze, da Orquestra Paulistana de Viola Caipira, concorda com Vilela. "São Paulo é maior capital caipira do Brasil", define, lembrando que a maioria dos 50 integrantes de seu grupo é paulistana. "Mas muitos são de famílias que vieram do interior." Fundada em 1997, a orquestra reúne violeiros do Centro de Educação Musical Tom Jobim e do Instituto São Gonçalo de Estudos Caipiras. "Todo mundo que toca aqui ou é aluno ou é professor", simplifica Torneze. Aliás, o aprendizado é constante. "Costumo brincar que para se tornar violeiro é preciso estudar por 40 anos." Com uma bela trilha sonora, cheia de ponteados e poesia.

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