A nova vida dos refugiados palestinos em SP

11 meses depois de chegarem a Mogi, eles começam a se adaptar, apesar da falta de documentação

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2008 | 00h00

Eles amam o Brasil, mas ainda não se sentem cidadãos. Onze meses após chegarem ao País, os 57 refugiados palestinos que atualmente moram em Mogi das Cruzes, Região Metropolitana de São Paulo, reclamam de falta de documentos e dificuldade em conseguir trabalho e trazer ao País parentes que estão no exterior. Mas, aos poucos, vão se adaptando. Há dez meses, nasceu o primeiro bebê da colônia, Mohaned Ahmad Moussa Abu-Ulaa, que já intercala as palavras mamãe, papai e comida com as similares em árabe - baba, mama e tabih. Na próxima semana, Fatema Walid, de 22 anos, dará à luz uma brasileirinha. "Nós estamos gostando muito daqui. Todo mundo fala que tem violência e ladrão, mas sentimos segurança", afirma Huda Abu Taha, de 29 anos, que fala português quase fluente e quando se perde recorre a um imenso dicionário de capa preta. A família vive com ajuda mensal de R$ 1.200 do Alto Comissariado das Nações Unidas Para Refugiados (Acnur) e mora numa casa de dois quartos no centro de Mogi. O aluguel é pago pelo governo brasileiro. O caçula da família, Ali Khaled Abu Taha, tornou-se o talento do grupo no futebol. Aos 18 anos, o "Ronaldinho das Arábias" é, desde maio, atacante do Brazsat em Brasília. A comunidade, que já se dividiu entre corintianos, palmeirenses e são-paulinos, põe a maior fé nele. Ao todo, 109 palestinos que viviam no Iraque - a maioria em Bagdá - se mudaram para o Brasil. Chegaram em dois grupos, nos dias 21 de setembro e 5 de outubro. Uma parte foi para Mogi, a outra seguiu para o Rio Grande do Sul. Eles tiveram suas vidas transformadas drasticamente em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o país e derrubaram Saddam Husseim. Por serem palestinos, passaram a ser perseguidos por milícias armadas e viram muitas famílias "simplesmente desaparecerem". As que vieram ao Brasil viviam no campo de refugiados em Ruweished, deserto jordaniano, onde moravam 15 mil pessoas. O local era infestado por escorpiões, com tempestades de areia constantes e clima oscilando entre verão escaldante e inverno com temperaturas abaixo de zero. Foram cinco anos em tendas. Uma época que pretendem esquecer. Ali conta que começou a sonhar com futebol assim que soube que viria ao Brasil. "Só que pensava que seria muito difícil concorrer com os brasileiros, que são os melhores." Até que fez o teste e passou. Só está chateado porque os colegas do time estão excursionando pela Europa. "Não pude ir porque minha documentação não saiu." Desde que chegou ao País, Walid Al-Tamini se dedica a escrever um livro sobre a história da Palestina. Pretende lançá-lo em árabe e português em novembro. "Depois quero escrever outro sobre a vida de refugiado no Brasil", diz ele, que em Bagdá trabalhava de contador e aqui se apaixonou por estrogonofe, que prepara com proteína de soja. Não come carne porque teme que o frango não tenha sido abatido como determinam as regras muçulmanas. Na casa dos Taha, o café é feito com pó brasileiro, mas do modo árabe: bem grosso. A dona da casa, Donya, de 52 anos, faz de crochê os tradicionais lenços usados pelas muçulmanas. Mas também já faz bordados em ponto cruz. Por dois anos, os refugiados terão garantidos no Brasil ajuda financeira (que varia segundo o tamanho da família) e aluguel das casas. Depois disso, o Acnur espera que eles caminhem sozinhos. Mas sobram reclamações. "Não temos apoio do Acnur. Fizeram muitas promessas que não cumpriram", queixa-se Ahmad Moussa-Abu-Ulla, que ainda não conseguiu trazer seu filho. "Simplesmente esqueceram. Não somos cidadãos nem do Iraque nem da Palestina e agora nem do Brasil. Só temos um protocolo de refugiados que não serve para nada." Para o representante do Acnur Javier López-Cifuentes, a integração dos palestinos é mais demorada por causa da diferença cultural. Mas há progressos. "Crianças e mulheres já estão falando fluentemente." Com relação aos parentes no exterior, explica que só podem ser trazidos os de primeiro grau e o processo é lento. "Muitos estão ilegais na Síria e é até difícil contatá-los." Já a vinda do filho de Ahmad é dificultada pelo conflito na Faixa de Gaza entre israelenses e palestinos. O Comitê Nacional para os Refugiados, do Ministério da Justiça, garante que documento de refugiado tem valor legal e, se os palestinos quiserem, já podem tirar CPF, RG e carteira de trabalho. A cada dois anos, têm de renovar o visto. A partir da terceira vez, podem pedir cidadania brasileira.

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