A política na Casa Civil

Descontado o curto período de José Dirceu, atropelado pelo escândalo do mensalão, a Casa Civil volta a ter função política depois de 16 anos de gestão técnica. Clóvis Carvalho e Pedro Parente, no governo FHC, e Dilma Rousseff, na maior parte do governo Lula, foram importantes no contexto interno, coordenando as ações e facilitando as decisões dos presidentes a que serviram.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2011 | 00h00

Curiosamente, Parente e Dilma assumiram a Casa Civil em situações de emergência e tiveram nas crises de energia seus desafios de maior impacto pela interferência direta dos "apagões" na vida dos contribuintes. Associaram seus perfis à eficiência técnica e administrativa.

Ambos estiveram subordinados a presidentes tarimbados, testemunhas e protagonistas dos principais eventos da vida política brasileira nas últimas décadas. Mas seus perfis estritamente técnicos levaram FHC e Lula a fixar na Secretaria de Relações Institucionais a coordenação política de seus governos.

A técnica Dilma de ontem é a presidente da República de hoje. Numa inversão de papéis, tem no seu antigo posto um experimentado político capaz de suprir a sua pouca experiência no ramo. Decisivo na administração de uma base aliada tão numerosa quanto complexa.

Antônio Palocci começa hoje uma caminhada que pode levá-lo a ser considerado entre as opções futuras para a Presidência. Na verdade, inicia o resgate de um processo que comprometeu ao enredar-se numa trama contra um caseiro indefeso.

Lento e gradual

O vice-presidente da República, Michel Temer, tomou posse sem se licenciar da presidência do PMDB. Sua assessoria sustenta que não há conflito com recomendações da Comissão de Ética Pública da Presidência da República, que em 2008 obrigou o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, a se afastar da presidência do PDT por incompatibilidade no acúmulo dos cargos. Assessores de Temer avaliam que a incompatibilidade só se efetivaria quando Temer assumir a Presidência, na ausência de Dilma Rousseff.

Água na boca

Enquanto Temer não efetiva o afastamento do cargo, o PMDB do Senado mal contém a ansiedade para assumir o controle do partido. Quando Temer se licenciar, o senador Valdir Raupp (RO), vice-presidente do partido, lhe sucederá. Raupp tem um café da manhã pré-agendado com Temer para amanhã ou terça-feira em Brasília, para combinar a transmissão do cargo.

O retorno

A mudança de cadeiras representa a ascensão do senador Renan Calheiros (AL) ao comando do PMDB, já que coube a ele indicar Raupp para o cargo na Executiva do partido. Emplacando Raupp, Renan venceu queda de braço com o líder do governo, senador Romero Jucá (RR), que cobiçava o posto, vislumbrando um atalho para a liderança nacional do partido.

Bolsos vazios

Além de não conseguirem a reeleição, dezenas de parlamentares da base aliada retornarão a seus Estados sem o pagamento das emendas pelo governo federal. O novo governo já convive com o receio de que a promessa não cumprida se reverta em traições nas primeiras votações no Congresso. O senador reeleito pelo PT de Mato Grosso do Sul, Delcídio Amaral, fez a síntese no Twitter: "Nem rapa do tacho sobrou este ano."

Por escrito

Com Dilma, os discursos presidenciais voltam a ser feitos na Secretaria de Comunicação Social da Presidência. No governo Lula, essa função foi para a Secretaria-Geral, sob comando de Luiz Dulci. Seu sucessor, Gilberto Carvalho, já comunicou à nova ministra, Helena Chagas, que a equipe de redatores será remanejada para sua pasta, até ontem ocupada por Franklin Martins. O estilo improvisador de Lula manteve inéditos mais de mil discursos produzidos por Dulci.

Pagot fica

O ex-governador de Mato Grosso e senador eleito Blairo Maggi venceu queda de braço interna no PR pela diretoria-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Ele conseguiu manter no cargo seu apadrinhado, Luiz Antônio Pagot. Outra ala do partido havia indicado o senador César Borges (BA) para o cargo, que chegou a ser recebido por Dilma Rousseff para uma conversa. Borges não conseguiu se reeleger, após preterir o DEM para se coligar com o PMDB na Bahia.

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