''A primeira coisa a fazer é melhorar o diálogo''

ENTREVISTA - Célia Zaparolli: Advogada e coordenadora do Íntegra, Gênero e Família

Laura Diniz, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2008 | 00h00

A advogada Célia Zaparolli trabalha há quase 20 anos com violência familiar - tanto episódios que vão parar nas estatísticas policiais quanto os que não aparecem, mas geram divórcios litigiosos e brigas. Concluiu que, na maioria dos casos, não há mocinhos nem bandidos, mas um contexto de violência mútua. Hoje, coordena o Íntegra, Gênero e Família, instituição que faz mediação criminal. Segundo ela, "a primeira coisa é melhorar o diálogo".Como avalia a pesquisa?É importante porque derruba o mito de que só o homem bate e só a mulher apanha. O fato de ela muitas vezes partir para a agressão física não é raro. A mulher bate como reação a quê?Não são só as mulheres que agridem fisicamente como reação. Nada justifica, mas dá para entender quando se vê a relação por uma ótica sistêmica. Por exemplo, um chega alcoolizado e o outro fica irritado. O alcoolizado reage e há escalada da violência. Bater, às vezes, é uma tentativa de parar a violência daquela dinâmica.Pode dar um exemplo?Tratamos um casal, em que ele bebia e usava cocaína. Sempre que chegava em casa sob o efeito de alguma substância, ofendia a mulher. Um dia ela perdeu o controle e deu duas facadas nele. A reiteração de violências verbais faz o outro reagir a qualquer momento. Existe um efeito "bola de neve"?Exatamente. Uma vez, conseguimos uma decisão judicial de separação de corpos por violência psicológica. A casa estava no nome dele. Para que ela fosse embora e ele pudesse vender a casa, o homem fazia pequenas violências psicológicas. Sumia com o controle do portão, trancava a dispensa, não pagava a luz. Ela não podia fazer nada na casa. Fatos até ridículos, mas, com a reiteração, ficou insustentável. Ela berrava e o chutava...Então, não há culpado nem vítima?A pauta da violência é construída pelos dois. Casamentos violentos foram namoros violentos. Muitas vezes, a pessoa não tem força ou possibilidade material para sair da situação. As pessoas percebem que estão nessa roda-viva? Nem sempre. A primeira coisa a fazer é melhorar o diálogo. O tratamento ajuda nisso. Fizemos uma pesquisa no Íntegra em 2005 e 2006. Ao chegar lá, 54% achavam que ambos eram responsáveis pela violência. Após a mediação, o número subiu para 81%.

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