A quadra 13 do Tarumã

Jonathan dos Santos Alves se perdeu na Floresta Amazônica em maio deste ano. Morava com a família em um sítio que se emburaca 47 km mata adentro, a partir da BR-174. Os bombeiros desistiram do Jonathan em uma semana. O Exército não quis ajudar. Então o Edilson, um semi-analfabeto de 41 anos que vinha a ser o pai do Jonathan, montou sua equipe de resgate - enfim um exército, embora de Brancaleone. Usando óleo diesel no corpo como repelente de insetos, ele empreendeu uma busca épica pelo filho. Encontrou-o no 49º dia. Aos 18 anos, Jonathan morreu segundos depois de ter sido localizado. O Estadão publicou duas reportagens sobre o caso. A família abandonou o sítio e foi morar na cidade. Mantém-se com um benefício pago pelo INSS à filha que tem síndrome de down - e também da caridade de leitores deste jornal. Edilson tinha um irmão chamado Maurício da Silva Santos, de 36 anos. Ao contrário do outro, o Maurício era um sujeito urbano, apreciador de hip-hop, um motoboy que só andava no corredor. O Maurício era Flamengo e Caprichoso, o boi-bumbá adversário do Garantido na festa de Parintins. Era também o melhor amigo do Edilson e tipo um irmão mais velho do Jonathan. Solteiro, gostava de apresentar ao sobrinho umas baladas em Manaus. O Jonathan aproveitava para fumar cigarro - Carlton ou Derby, dependendo do quão durango se encontrasse na ocasião. A Socorro se confundia: "Jeová Deus, meu filho está queimando fumo!" Quando o Jonathan sumiu, Maurício se alistou no diminuto exército de Brancaleone. O grupo pretendia primeiro percorrer um igarapé na precária canoa em que fizeram lá uma gambiarra, adaptando um motor. Mas, à medida que a esquadra avançava, raízes e troncos apareciam sobre a superfície, misturando-se aos cipós que vinham de cima. Durante três dias, pelejaram com essa verdadeira união do vegetal. Por fim viram-se numa canoa furada quando um dos homens acertou com o terçado umas caixas de marimbondo. Em terra firme, no caso um pântano, o Edilson mirou um macaco. O tiro acertou no pescoço. Os índios esquartejaram o animal, assaram a carne na brasa e deixaram a cabeça cozinhando na lenha. Mais tarde abriram o crânio e misturaram os miolos na farinha. O Maurício achou aquilo uma nojeira. Trinta dias depois, Jonathan foi enterrado na quadra 13 do cemitério do Tarumã, em Manaus, onde a cova é apenas um buraco na terra e uma cruz azul identifica o morto. Na cruz do Jonathan, erraram o seu nome: escreveram Jonatha. O Maurício voltou a trabalhar com mototáxi. Uma noite, três adolescentes quiseram roubar sua Honda 150. Maurício foi esfaqueado nas costas. O resgate que vinha não veio e ele demorou para chegar ao hospital. O Maurício achava que selva era coisa do interior da floresta. Agora ele está lá, do lado do Jonatha, na quadra 13 do Tarumã.

Fred Melo Paiva, O Estadao de S.Paulo

20 Outubro 2008 | 00h00

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