A regra do jogo

A presidente Dilma Rousseff faz hoje sua primeira reunião ministerial e, como tudo neste início de governo é naturalmente visto sob a ótica do cotejo com a administração anterior, poderá marcar (ou não) mais uma diferença de estilo.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2011 | 00h00

Ela dirá quais são as regras do seu jogo.

Na primeira metade do primeiro mandato de Lula, ainda sob o comando de José Dirceu, houve várias reuniões ministeriais que eram caracterizadas como grandes eventos onde se estabeleciam metas que eram manchete de jornal.

Na reunião seguinte, de novo falava-se em metas sem a cobrança nem o resultado das anteriores. Logo ficou claro que tais encontros tinham o único objetivo de ocupar espaço nos meios de comunicação.

Tanto é que, quando começaram os escândalos, cessaram as reuniões periódicas. Se Dilma reunirá ministros à brinca ou à vera é algo que se confere em pouco tempo.

Um bom parâmetro será o Conselho de Gestão e Competitividade. Pode atuar para valer ou pode ter o destino do Conselho de Desenvolvimento Social e Econômico. Recebido como uma grande novidade, digna de cobertura nobre pelos meios de comunicação, o que se viu na realidade é que o chamado "conselhão" não serviu para coisa alguma e perdeu importância.

A antecipação, ontem, de pontos a ser abordados por ela na abertura da reunião de hoje e, sobretudo, a reserva que se impôs desde a posse trazem boas notícias.

Consta que Dilma será bem objetiva: determinará corte de gastos com custeio a toda a administração; informará que nas agências reguladoras não serão aceitas indicações políticas para os cargos vagos e para a substituição dos mandatos a serem concluídos.

Anunciará que os cargos de segundo escalão poderão ser preenchidos pelos partidos, mas avisará que cada um ficará responsável pelo desempenho do respectivo indicado e mais uma vez afirmará seu compromisso com a ética.

Não obstante óbvio diante dos desmandos em vigor até 31 de dezembro último, o rol das providências é bom.

O cardápio, porém, deixa à vista uma evidência: se for mesmo para valer, significa que Dilma Rousseff não teve a influência no governo anterior apregoada durante a campanha eleitoral, já que faz tudo diferente.

Falava-se dela como se fosse a verdadeira alma do governo, a inspiradora de todas as decisões. Vê-se agora que isso não era verdade. Ou, então, essas primeiras decisões têm peso relativo na perspectiva daquilo que realmente será posto em prática.

Uma terceira hipótese: discordava dos gastos a rodo, da opção preferencial pelo aprofundamento do fisiologismo e do menosprezo ao mérito e à ética, mas calou para não desagradar ao chefe.

Liturgia. Um acerto a ida de Dilma ao Rio, sua presença ao lado do governador Sérgio Cabral na entrevista sobre a tragédia das chuvas e a breve mensagem de solidariedade às vítimas.

Prova de que pode se sair muito melhor o governante obediente ao regulamento que o que não ouve ninguém a não ser o próprio instinto.

Titularidade. É uma idiossincrasia vã essa exigência de Dilma de ser chamada de "presidenta". Isso se for mesmo exigência dela e não invenção de marqueteiro.

Não foi por implicância que a imprensa decidiu tratá-la por "presidente": é o originalmente correto - o termo "presidenta" foi incorporado ao idioma por dicionaristas -, soa muito melhor e segue a regra de substantivos usados para os dois gêneros.

Mesmo auxiliares da presidente têm alguma dificuldade de se referir a ela segundo a nova norma. Sem contar que é constrangedor ver gente adulta tentando se adaptar só para agradar ao poder.

No lugar de tentar impor a regra, mais adequado seria o governo se adequar à prática idiomática comum no País. Inclusive porque não é isso o que fará a afirmação feminina, muito menos determinará o sucesso ou fracasso da primeira mulher presidente do Brasil.

Bom senso é como caldo de galinha: mal não faz.

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