'A relação entre Obama e Dilma dependerá da química entre os dois'

ENTREVISTA

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2010 | 00h00

Michael Shifter, presidente do Diálogo Inter-Americano

Não dá para dizer ainda como será a relação entre Barack Obama e Dilma Rousseff. Segundo Michael Shifter, presidente do Diálogo Inter-Americano, "todas as previsões sobre as relações entre presidentes brasileiros e americanos nos últimos tempos foram equivocadas. Lula e (George W.) Bush eram amigos. Já Lula e Obama não têm uma relação tão amistosa".

Para o professor, considerado um dos maiores especialistas em América Latina dos EUA, um dos principais pontos de tensão entre os dois países continua sendo a questão nuclear iraniana. O candidato do PSDB, José Serra, de acordo com o analista, teria uma posição mais próxima à dos americanos. A seguir, leia trechos da entrevista concedida ao Estado.

O que a administração de Barack Obama acha de Dilma?

Eles já trabalhavam há algum tempo com a possibilidade vitória dela. Não há surpresa. Sabem que não ela não tem o carisma de Lula, mas que é uma administradora eficiente. E, independentemente de quem vencesse a eleição, os EUA têm confiança na estabilidade do Brasil, conforme afirmou Thomas Shannon (embaixador dos EUA em Brasília). Tanto ela quanto Serra não causam ansiedade em Washington.

Mas existem diferenças na visão dos dois países em questões de política externa.

Verdade, e o Irã certamente é um ponto de tensão. Serra seria mais próximo da posição americana em relação à questão nuclear iraniana, o mais importante tópico de política internacional hoje. Os dois países também possuem disputas comerciais e divergem sobre as mudanças climáticas. Na América Latina, houve diferenças durante a crise hondurenha. O Brasil também discorda das sanções americanas a Cuba.

Antonio Patriota, atual secretário-geral do Itamaraty e ex-embaixador em Washington, está cotado para o Ministério das Relações Exteriores. Seria um bom nome na avaliação americana?

Patriota conhece bem os EUA por ter sido o embaixador em Washington e tem um bom diálogo com o governo de Obama. Seria um bom nome por ser uma figura conhecida.

Como deve ser a relação entre Dilma e Obama?

Todas as previsões sobre as relações entre presidentes brasileiros e americanos nos últimos tempos foram equivocadas. Lula e Bush eram amigos, diferente do que muitos previam devido ao passado dos dois líderes. Já Lula e Obama não possuem uma relação tão amistosa, apesar de muitos imaginarem o oposto. Logo, a relação entre Obama e Dilma dependerá muito da química entre os dois.

A América do Sul tem novos presidentes - Juan Manuel Santos (Colômbia), Sebastian Piñera (Chile) e Dilma. Dois de centro-direita e nenhum da esquerda chavista. Para que lado está pendendo a região atualmente?

Na verdade, a América Latina deu uma guinada para o centro. Segundo pesquisa do Latinobarómetro, cresce o número de habitantes que se identificam como centristas, enquanto diminuem os que se descrevem como esquerdistas e direitistas. Além disso, com exceção de Hugo Chávez (Venezuela) e Evo Morales (Bolívia), não dá mais para rotular os políticos como direita ou esquerda. O atual presidente da Colômbia poderia até ser chamado de centro-esquerda. O que a população quer é um presidente de resultados, pragmático. Dilma pode garantir a continuação da administração Lula, que é bem avaliada pela população.

QUEM É

Michael Shifter é presidente do Diálogo Inter-Americano, núcleo de estudos de Washington sobre a América Latina. Richter também é professor de política latino-americana na Georgetown University e membro do Conselho de Relações Exteriores, organização fundada em 1921. Ele atuou como diretor do Escritório de Washington na América Latina (WOLA) e do Comitê de Conselhos de Observação dos Direitos Humanos/Divisão da América.

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