Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

'A religião não pode ser algo que divida as pessoas'

Iris Hellmisch, que ocupa o prestigioso púlpito usado por Martinho Lutero, relata desafios da igreja

Entrevista com

Iris Hellmisch

Jamil Chade, Enviado especial

29 Outubro 2017 | 03h00

EISLEBEN - Iris Hellmisch é filha de pastores e casada com um pastor. Hoje, ela é uma das religiosas que ocupa o prestigioso púlpito usado por Martinho Lutero em sua cidade de origem, Eisleben.  

Em entrevista ao Estado, a pastora insiste na necessidade de falar de tolerância e defende a religião como um instrumento de abertura, e não de radicalismo. Mas Iris admite que um dos maiores desafios é o de voltar a atrair a população à igreja e conta como teve até mesmo de explicar o que é um sermão.  

Sua igreja, que num momento foi o centro de uma religião, hoje está vazia de fiéis. Eis os principais trechos da entrevista:  

A sra. sente uma responsabilidade extra pregando do mesmo local do qual Lutero fazia? 

Com certeza. Não apenas uso as palavras dele, mas o local de onde ele falava.  

De que forma Lutero a influencia diante dos fiéis? 

Ele nos relembra que temos de falar às pessoas. Ele ia ao ponto, sempre. Sua forma de pregar era com base na Bíblia, não sobre ele. Lutero falava com imagens para explicar a mensagem. Jesus também fazia isso.  

Há 500 anos, essa igreja certamente estava lotada. E hoje? 

Eu ensino aos guias de turismo o que essa igreja é. Mas o curioso é que eu preciso também ensinar o que é um sermão. Muitas pessoas hoje não sabem nem o que é um sermão e nunca entraram numa igreja.  

E o que é um sermão hoje? 

É fazer as pessoas pensarem por si mesmas sobre a palavra de Jesus. Não é dizer o que eles têm de fazer. Não sou eu quem devo dizer a eles. Eles precisam pensar por si próprios.  

E como a sra. explica uma situação em que a população da cidade sequer sabe o que é um sermão, na cidade de Lutero? 

Essa é já a terceira geração. Seus avós deixaram a igreja. Alguns dos jovens vem até mim e me dizem que querem batizar suas crianças. São coisas que eles não receberam de seus pais. Ninguém os ofereceu isso. 

O que causou esse êxodo? 

Durante o governo da Alemanha Oriental, as pessoas foram pressionadas a deixar a igreja. Muitas pessoas não tiveram confirmação, nem batizados e nem aulas de catecismo. Essas atividades aos jovens foram substituídas por atividades da juventude socialista. Era muito difícil se casar numa igreja. Portanto, se você não estava casado na igreja, não havia como batizar.  

Hoje, num culto que a sra. realiza, quantas pessoas estão presentes? 

Entre 30 e 40. Muita gente aqui nunca esteve numa igreja. Quando algumas das obras de renovação terminaram, algumas famílias entraram para ver o que existia lá dentro. Mas elas estavam vazias. Outro impacto que vimos foi o fato de que, com as comemorações dos 500 anos de Lutero, essa população começou a ver ônibus de estrangeiros desembarcar para visitar o que eles nem sequer conheciam. A reação foi: eu tenho de ver o que todos vêm até aqui para visitar.  

O que significa o desaparecimento da religião aqui nessa região?  

Meu sentimento é de que a população adoraria voltar a ter esse lado espiritual. Mas não sabem exatamente como fazer e nem como se expressar nesse sentido. Acho ainda que é possível atrair a juventude. Não toda ela. Mas principalmente aqueles que se deram conta de que ir às compras no domingo não é a prioridade. Trazemos também crianças pequenas e vemos com ficam impressionadas com as histórias que escutam. Mas o assunto desaparece uma vez que crescem. A religião não é nem mais um tema de debate. Está, em algumas instâncias, totalmente fora das considerações.  

Mas o que vocês fazem para tentar trazer essas pessoas de volta? 

Realizamos muitas atividades culturais e concertos. Nossa estratégia é a de ser aberto. As igrejas estão abertas e ninguém questiona quem entra. Recebemos crianças não batizadas também. Nós, os pastores, ainda nos colocamos à disposição para conversar e sermos acessíveis.   

Estamos em meio a uma crise de intolerância em diversas partes do mundo. Até que ponto sua pregação tenta atender a essa questão? 

Essa é uma questão fundamental. Tivemos eleições gerais há pouco tempo e os resultados não foram positivos em Eisleben. O AfD (partido de extrema direita) teve 30% dos votos aqui. Portanto, é um problema real. Não acredito que os eleitores sejam membros da igreja. Mas viver como cristão é viver em paz com seu vizinho. Um dos temas da Reforma foi justamente a graça. Oferecer a todos sua mão é algo que precisa ser realizado. Compartilhar é um presente para um cristão. Muita gente deixou Eisleben, com a falta de trabalho. Muitos apartamentos estão vazios. Portanto, os estrangeiros passaram a viver entre os habitantes locais. Mas temos um enorme problema de desemprego.   

Como a sra. vê o papel da religião numa sociedade multicultural? 

Se você sente que Deus te ama, não precisa buscar formas de impressionar ninguém, nem se colocar no centro da sociedade. A religião não pode ser algo que divida as pessoas. Mas um instrumento para ser uma abertura. 

Qual deve ser a mensagem da comemoração dos 500 anos da Reforma? 

Para cristãos ou não-cristãos, a Reforma mudou o mundo. No centro, está o ser humano. As perguntas que Lutero apresentou são questões que temos de recolocar diariamente. Como igreja, temos a mensagem da graça. Não é o que você tem e o que você é. Mas o que você pode dar. Essa é uma mensagem muito poderosa hoje, num mundo em que todos querem apenas ter.   

E qual a relação da sra. com a igreja católica?  

Fazemos muitas coisas juntos. Não é uma questão de luteranos ou católicos. Temos problemas comuns aos cristãos. Fazemos, uma vez por mês, cultos conjuntos. Em certos momentos, também deixamos que os católicos façam suas missas para Maria em nossas igrejas, que foram erguidas antes da Reforma e contam com imagens de Maria. 

Como a sra vê o impacto que pode ter para meninas a presença de uma mulher na liderança de um culto?  

Há uma anedota que resume isso: na Inglaterra, onde as mulheres podem pregar desde 1994, uma garota que cresceu dentro da igreja um dia foi levada a uma catedral católica. Ao entrar e ver apenas homens no altar, ela disse para sua vó: não sabia que homens também podem pregar?

Existe ainda resistências em relação à presença de uma mulher no púlpito? 

Minha mãe já era pastora e teve de lutar. Na minha geração, temos mulheres no bispado. Já é algo consolidado dentro da nossa igreja. Mas temos de lutar para que continue sendo normal e em várias áreas da vida produtiva. Com o desemprego, há uma pressão para que seja o homem o que tenha o emprego e que a mulher fique em casa.  

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