A Revolução de 1924

Cinco de julho de 1924 foi um sábado. Naquele tempo, sábado era um dia de trabalho como outro qualquer. Quem tomava o café da manhã no bar e restaurante da Estação da Luz às 6h não notou nada. Quem tentou tomar o trem às 8h30 na mesma estação descobriu que não havia trens e que a estação fora ocupada por uma tropa da Força Pública comandada por um sujeito magrela, um tal de Tenente João Cabanas, que ficaria famoso. Mandou fuzilar saqueadores no centro. Nessa mesma hora, já estavam presos os comandantes da Força Pública e da 2ª Região Militar, do Exército. Este ainda vestia farda de gala, de uma festa no Hotel Esplanada, atrás do Teatro Municipal. Fora acordado de madrugada por um ajudante de ordens que lhe deu a notícia de que a festa era outra: uma revolta de oficiais do Exército e da Força Pública para depor o presidente, Artur Bernardes. Poucos dias depois, o governador Carlos de Campos abandonava o Palácio dos Campos Elíseos para se refugiar na estação de Guaiaúna, na Penha, sob tutela das forças legais do Exército. O ministro da Guerra e os generais mandaram bombardear a cidade para desalojar os revoltosos. Dia e noite os tiros podiam ser ouvidos em todos os cantos. Da Avenida Paulista ao Brás, ao Belenzinho, à Vila Mariana, à Mooca, às Perdizes, ao Ipiranga, à Vila Prudente, trincheiras foram abertas nas ruas. Um tiro de canhão despejou uma bomba no Liceu Coração de Jesus e feriu algumas crianças. A Igreja da Glória, no Lavapés, foi praticamente destruída. Famílias inteiras morreram dentro de casas bombardeadas. Mortos foram sepultados em terrenos baldios e quintais. Mais de um terço da população fugiu para o interior. Um grande número de adultos e crianças foi recolhido a um acampamento de refugiados da Cruz Vermelha. Aquele foi um dos invernos mais frios de São Paulo. A cidade foi bombardeada durante 22 dias. Artur Bernardes e seu ministro da Guerra mandaram dizer aos que pediam misericórdia para o povo de São Paulo, que São Paulo era rico e não teria problemas para reconstruir a bela cidade se ela fosse destruída. Os revoltosos a abandonariam só na madrugada de 28 de julho, quando se retiraram de trem para o interior, bombardeando pontes no caminho. Deixaram para trás mais de 500 mortos, a maioria civis, um grande número de feridos e mutilados, fábricas, residências e armazéns destruídos pelos bombardeios e pelos incêndios. São Paulo é a única cidade brasileira que já sofreu bombardeio aéreo. Não há um único monumento que celebre a memória das vítimas. O único foi feito à bala: a chaminé de uma usina termoelétrica na Rua João Teodoro, em que, 85 anos depois, ainda se pode ver os buracos dos tiros de canhão.

José de Souza Martins, O Estadao de S.Paulo

06 Julho 2009 | 00h00

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