EFE|Claudio Peri
EFE|Claudio Peri

A revolução e a reação a Francisco dentro do Vaticano

Papa argentino, que realiza notáveis mudanças na Igreja e vê resistência na Cúria Romana, diz que dificuldades são salutares

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

O papa Francisco, o argentino Jorge Mario Bergoglio que em 13 de março de 2013 se apresentou como aquele que vinha do “fim do mundo” para governar um rebanho de mais de 1,3 bilhão de católicos, está fazendo uma notável revolução na Igreja, apesar de resistências internas na Cúria Romana. Quatro cardeais – um que ainda está na ativa e três já aposentados – cobram dele, em carta aberta, a revisão de posições que, no entender dos descontentes, violam tradição e doutrina milenares.

O líder da contestação é o norte-americano Raymond Leo Burke, destituído por Francisco do cargo de prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica do Vaticano e nomeado patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta. Os outros signatários da carta são o italiano Carlo Caffarra e os alemães Walter Brandmüller e Joachim Meisner, octogenários e, portanto, não eleitores em caso de um eventual conclave para eleição do papa.

Os quatro cardeais e seus eventuais seguidores protestam contra o texto da exortação apostólica Amoris laetitia (A alegria do amor), na qual Francisco abre portas para o acolhimento de casais divorciados que vivem uma segunda união, sem prejuízo da indissolubilidade do sacramento do matrimônio. 

A carta provocou reações de solidariedade ao papa e de discordância com os cardeais. Francisco disse, ao comentar o protesto, que tudo o que ele escreveu na Amoris laetitia foi aprovado por mais de dois terços dos bispos participantes do Sínodo sobre a Família, em outubro de 2015.

O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Gehard Ludwig Müller, declarou no dia 8 de janeiro que os cardeais têm “todo o direito de escrever ao papa”, mas acrescentou que estava “surpreso de que a carta tenha se tornado pública, quase forçando o papa a dizer ‘sim’ ou ‘não’”.

Ele disse que Amoris Laetitia é “claríssima em sua doutrina e que podemos interpretar toda a doutrina de Jesus sobre o matrimônio, toda a doutrina da Igreja em 2 mil anos de história”. Para Müller, é “uma perda para a Igreja discutir essas coisas publicamente”.

Em entrevista ao jornal católico Avvenire, o papa disse que a carta dos cardeais conservadores não tira o seu sono. Segundo ele, os ataques à exortação apostólica nascem de um certo legalismo que pode ser ideológico. “Alguns continuam a não compreender: ou é branco ou é preto, mesmo que esteja no fluxo da vida o discernimento.” 

Em sua política de abertura, de uma Igreja que vá ao encontro das pessoas, o papa Francisco pediu que as dioceses não excluam os divorciados recasados, pois eles “não estão excomungados”. 

Francisco defendeu, várias vezes, o batismo de filhos de mães solteiras, classificação, aliás, que ele rejeita porque mãe, disse ele, não é estado civil. Em janeiro de 2014, batizou filhos de uma mãe solteira e de um casal de divorciados. A Igreja obedece a alguns critérios em casos como esses – como o compromisso de se dar educação católica à criança e a assistência espiritual de padrinhos.

“Com relação à admissão de recasados aos sacramentos da penitência e da eucaristia, o papa ensina que é preciso acompanhar, discernir e integrar a situação dos casais”, adverte o padre Manoel Godoy, teólogo e ex-assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). 

Em artigo sobre a atuação do papa Francisco e a resistência que vem enfrentando na Igreja, padre Godoy observa que “quando colocamos os pés no chão de nossa realidade, nos deparamos com a velha estrutura, que quer sempre tudo igual, insistindo em manter-se fechada dentro de hábitos que não respondem a novas necessidades que ‘obstaculizam’ ver a realidade com mais transparência”.

Mudança. A resistência à revolução de Francisco vai além da oposição dos quatro cardeais à Pastoral Familiar. A Cúria Romana se sente incomodada com as inovações, e o papa sabe disso. À véspera do Natal, no dia 22 de dezembro, ele mandou um recado claro à cúpula burocrática da Igreja, em discurso a seus principais auxiliares. 

“A reforma não tem uma finalidade estética, como se quisesse tornar mais bela a Cúria; nem se pode entender como uma espécie de avivamento, maquiagem para embelezar o velho corpo curial, nem mesmo como uma operação de cirurgia plástica para tirar as rugas... Não são as rugas que se devem temer na Igreja, mas as manchas!”, advertiu Francisco.

O papa acrescentou que, no percurso de qualquer reforma, é normal, até mesmo salutar, encontrar dificuldades, com resistências “que podem ser abertas, ocultas e até malévolas, que germinam em mentes doentes e aparecem quando o diabo inspira más intenções (muitas vezes disfarçadas sob pele de cordeiros)”. 

“Este último tipo de resistência esconde-se por trás das palavras justificadoras e, em muitos casos, acusatórias, refugiando-se nas tradições, nas aparências, nas formalidades, no conhecido, ou então em querer reduzir tudo a um caso pessoal, sem distinguir entre o ato, o ator e a ação”, pontuou Francisco.

Francisco tem pressa em levar adiante as iniciativas que vêm mudando a face da Igreja, talvez pelo pressentimento de que não lhe restam forças para completar a tarefa que se propôs. Ao reafirmar a intenção de visitar Fátima, em Portugal, no centenário das aparições de Nossa Senhora, o papa impôs uma condição: “Se Deus me der vida e saúde”. 

Em 16 de dezembro, o Vaticano confirmou a realização da viagem para 12 e 13 de maio. O papa argentino só tem um pulmão e caminha com dificuldade, conforme se vê nas cerimônias de que participa. Ele já se arriscou até a prever o tempo que lhe resta neste mundo – uns três anos, talvez. 

Na comemoração de 80 anos, em 17 de dezembro, que celebrou com um café da manhã em companhia de um grupo de moradores de rua no Vaticano, Francisco revelou que só pedia de presente a Deus a manutenção da memória até o último suspiro.

Francisco quer estar consciente de seus atos, sem esquecer o que viveu em sua atuação religiosa, desde os tempos de padre e bispo em Buenos Aires até os últimos compromissos como papa. 

Carisma. O cerimonial da Santa Sé administra a agenda de Francisco com os devidos cuidados, mas ele surpreende com sua espontaneidade. Viaja para levar solidariedade aos que sofrem, como os refugiados que se arriscam nas águas do Mediterrâneo para chegar à Europa e as vítimas de terremotos que abalam a Itália. 

No aniversário de 30 anos do programa Unomattina, em 22 de dezembro, apareceu ao vivo na tela da RAI para cumprimentar os jornalistas da emissora. É esse constante bom humor que vem conquistando as pessoas, católicas ou não, pelo mundo afora.

O discernimento e a misericórdia são as grandes marcas do pontificado de Francisco, na avaliação do padre Antonio Spadaro, diretor da revista dos jesuítas Civiltà Cattolica. Em entrevista à Rádio Vaticano ele falou que Francisco procurou, desde o início de seu pontificado, uma virada missionária da Igreja. 

Spadaro citou como momentos fortes de 2016, na agenda de Francisco, a visita a Auschwitz e aos refugiados da ilha de Lesbos, na Grécia, a publicação da Amoris Laetitia e o encontro com o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa Kirill, em Havana, além da visita a Lund, na Suécia, para o encontro com os luteranos. A Igreja Católica deverá participar, em outubro, da comemoração dos 500 anos da Reforma Protestante, de Lutero. 

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